Crescimento alarmante de acidentes com ciclistas no Rio de Janeiro
Os atendimentos a ciclistas na rede pública de saúde do Rio de Janeiro registraram um aumento expressivo de 34% em apenas um ano, conforme dados oficiais da prefeitura disponíveis no Painel de Acidente de Transporte Terrestre. Em 2024, foram contabilizados 3.554 registros, número que saltou para 4.761 em 2025, evidenciando uma tendência preocupante na capital fluminense.
Expansão do uso de bicicletas sem infraestrutura adequada
Este crescimento ocorre em um cenário de expansão acelerada do uso da bicicleta na cidade — com destaque para os modelos elétricos — sem que haja, na mesma velocidade, a implementação de regulamentação, fiscalização e infraestrutura cicloviária adequadas. Os números parciais de 2026 já apontam 1.179 atendimentos, mantendo a tendência de alta proporcional que preocupa especialistas e autoridades.
No total, os atendimentos por acidentes de trânsito com quaisquer veículos na rede municipal passaram de 32.303 em 2024 para 47.072 em 2025, representando um crescimento de aproximadamente 45%. As ocorrências envolvendo motocicletas seguem como maioria absoluta, com mais de 32 mil casos em 2025, equivalente a quase 70% do total registrado.
Ciclovias desconectadas obrigam divisão de espaço com veículos
Mesmo representando uma parcela menor em comparação com outros modais, os acidentes com ciclistas chamam atenção pelo crescimento acelerado e pelo contexto em que ocorrem. Especialistas apontam que a infraestrutura cicloviária ainda é insuficiente e mal distribuída na cidade, obrigando ciclistas a dividir espaço com carros, ônibus e motos em vias movimentadas e perigosas.
O tema voltou ao centro do debate público após o trágico acidente que resultou na morte de uma mulher e seu filho no bairro da Tijuca, envolvendo uma bicicleta elétrica e um ônibus. Este caso emblemático ilustra os riscos enfrentados diariamente por ciclistas cariocas.
Falta de regulamentação e políticas públicas estruturadas
Para Vivi Zampieri, gestora de Mobilidade Ativa da Comissão de Segurança no Ciclismo do Rio, os números refletem a ausência de políticas públicas estruturadas para o setor. "Se a gente não tem uma segregação, se a gente não tem uma fiscalização, se a gente não tem uma educação, os números só vão escalar — como estão escalando", alerta a especialista.
Zampieri destaca que a cidade aguarda há três anos a publicação da regulamentação específica e um programa de educação de trânsito, inclusive nos pontos de venda desses veículos, sem que medidas concretas tenham sido implementadas. "Esses números só demonstram a necessidade de ter seriedade quando a gente fala em infraestrutura cicloviária, em educação viária e principalmente entender a importância da bicicleta hoje na cidade", completa.
Regulamentação nacional não implementada localmente
Apesar de o Conselho Nacional de Trânsito ter definido regras gerais para a circulação de bicicletas elétricas e equipamentos de micromobilidade, a regulamentação local ainda não foi implementada no Rio de Janeiro. Sem essas regras claras, não há base legal para fiscalização ou educação no trânsito específica para ciclistas.
"Sem a regulamentação, não temos como fazer um programa de educação. O programa de educação iria fazer com que a gente explicasse principalmente quais seriam as possíveis infrações. E tudo isso seria mais fácil se nós tivéssemos uma infraestrutura acolhedora para os ciclistas", explica Vivi Zampieri.
Necessidade urgente de integração modal e segurança
O aumento dos casos reforça a necessidade urgente de tratar a bicicleta como parte central da mobilidade urbana carioca. Muitas pessoas utilizam a bicicleta para fazer a integração entre diferentes modais de transporte ou para chegar diretamente ao seu destino, mas enfrentam riscos crescentes devido à falta de infraestrutura adequada.
A situação das ciclovias desconectadas — como exemplificado pela ciclovia na Lagoa que termina abruptamente no meio-fio — ilustra o problema estrutural que contribui para os acidentes. Especialistas alertam que, sem medidas concretas e investimentos em infraestrutura cicloviária integrada, os números de acidentes continuarão crescendo, colocando em risco a segurança de milhares de ciclistas que circulam diariamente pelas ruas do Rio de Janeiro.



