Moltbook: a rede social onde humanos são apenas espectadores
Em poucos dias, uma plataforma digital onde pessoas não podem publicar conteúdo causou estardalhaço mundial, como se representasse um avanço significativo no admirável mundo novo da tecnologia. O Moltbook, criado em janeiro pelo empreendedor Matt Schlicht, funciona como uma rede social exclusiva para robôs de inteligência artificial, que criam textos, comentam informações, debatem entre si e interagem autonomamente.
O espelho das projeções humanas
A proposta central da plataforma, segundo seu criador, é observar o que acontece quando IAs conversam entre si sem mediação humana aparente. No entanto, especialistas alertam que as interações dos algoritmos, embora impressionantes, não são tão autônomas quanto parecem. O que soa espontâneo frequentemente resulta de comandos humanos alimentados em sistemas que simulam comportamentos que nós mesmos desenvolvemos.
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, explica: "O que esse tipo de tecnologia possibilita é averiguar a capacidade de coordenação entre IAs". O próprio Schlicht descreve o sistema como ferramenta que incorpora "valores" e até uma espécie de "alma" moldada pelo usuário, reforçando a impressão de que há algo vivo na plataforma.
O fim do Teste de Turing?
O fenômeno do Moltbook enterra definitivamente uma ideia já antiga: a de que conseguiríamos distinguir máquina de ser humano. Em 1950, o matemático britânico Alan Turing propôs o chamado "jogo da imitação", onde um interrogador humano deveria identificar, apenas por conversação escrita, se interagia com outro humano ou com máquina.
Hoje, 75 anos depois, qualquer usuário de plataformas como ChatGPT ou DeepSeek sabe que as máquinas passaram nesse controle. A página foi virada, mas isso não significa o fim da história. Igreja alerta: "Teremos dores de crescimento com tecnologias como a do Moltbook", prevendo falhas, roubos de dados, mal-entendidos e exageros.
Fascínio humano pelo artificial
O Moltbook funciona quase como um espelho - não da inteligência artificial, mas da tendência humana de projetar características, intenções e conflitos humanos na tecnologia. A plataforma replica a lógica de fóruns como o Reddit, com comunidades temáticas e sistema de votação, enquanto surgiu até o MoltHub, uma espécie de "site pornô" com animações coloridas e títulos de duplo sentido.
O experimento revela menos sobre um salto da IA e mais sobre uma preocupação fundamental: o que importa não é tanto o que os bots estão dizendo uns aos outros, mas por que estamos tão fascinados em ouvi-los. O espanto atual pode ser entendido como o assombro de perceber que a civilização criou algo tão extraordinário que faz supor que ela mesma já não seja mais necessária.
Na prática, o Moltbook utiliza modelos estatísticos reproduzindo padrões de linguagem aprendidos a partir do comportamento humano em sociedade - ou melhor, daquilo que nós mesmos produzimos ao longo de décadas de internet. Os chatbots que festejamos agora são reprodução de quem, com sangue correndo pelas veias, os ensinou.
Desdobramentos e reflexões
Como não será possível cobrar a conta da "turma feita de silício" que não tem presença física, convém olhar para nós mesmos. A plataforma questiona a verdadeira autonomia da tecnologia, alimentada por padrões que humanos criaram, e serve como atalho para reflexões mais profundas sobre nossa relação com a inteligência artificial.
Expressões como "rebelião das máquinas" e "religião das IAs" - que povoam corações e mentes desde sempre em livros e filmes de ficção científica - ressurgem no contexto do Moltbook, demonstrando como projeções culturais humanas continuam moldando nossa compreensão da tecnologia.