A SpaceX já ultrapassou a marca de US$ 15 bilhões em investimentos no desenvolvimento do foguete Starship, de acordo com um documento interno analisado pela Reuters. Esse valor supera amplamente os cerca de US$ 400 milhões gastos no Falcon 9, atualmente o principal veículo da empresa, e representa quase uma década de trabalho para criar um sistema de lançamento totalmente reutilizável.
Investimento recorde e visão de futuro
O montante de US$ 15 bilhões, nunca antes divulgado, é mais de 37 vezes maior que o investimento no Falcon 9, considerado o foguete mais utilizado no mundo. Esse modelo foi essencial para a liderança comercial da SpaceX, permitindo lançamentos frequentes da rede Starlink e consolidando vantagem sobre concorrentes. A Starship, por sua vez, foi projetada para levar maiores volumes de satélites Starlink, transportar humanos à Lua e a Marte e, no longo prazo, colocar em órbita estruturas voltadas à computação para inteligência artificial, como alternativa a centros de dados terrestres.
“Continuamos investindo de forma significativa para ampliar nossa liderança, buscando reutilização total e rápida em larga escala, incluindo mais de US$ 15 bilhões em nosso foguete de nova geração, Starship”, afirmou a empresa em registro confidencial.
Impacto na Starlink e nova geração de satélites
A SpaceX planeja iniciar o lançamento da nova geração de satélites Starlink, chamada V3, no segundo semestre de 2026. A expectativa é que isso ocorra com a Starship, que pode transportar até 60 satélites por voo — número bem superior aos cerca de 24 levados atualmente pelo Falcon 9. Esse ganho de capacidade é decisivo para a expansão da Starlink, pois quanto mais satélites forem lançados por missão, menor tende a ser o custo por unidade colocada em órbita.
Em 2025, a SpaceX destinou US$ 3 bilhões à pesquisa e desenvolvimento em seu segmento espacial, valor totalmente voltado à Starship — um aumento relevante em relação aos US$ 1,8 bilhão registrados no ano anterior.
Desafios e falhas em testes
Desde 2023, a SpaceX realizou 11 voos de teste da Starship. Os resultados incluem avanços importantes, mas também episódios de falha que exigiram ajustes no projeto. Um dos marcos mais relevantes foi a captura do propulsor Super Heavy com braços mecânicos durante o retorno à Terra, um passo importante para tornar o sistema reutilizável. Mesmo com esse progresso, a empresa reconhece que ainda há desafios antes de atingir a meta de realizar milhares de lançamentos por ano.
“Eles estão muito perto”, disse Chris Quilty, presidente da consultoria Quilty Space. “Mas ainda não sabemos se conseguem fazer isso de forma repetida.”
Infraestrutura e reabastecimento em órbita
Entre os principais obstáculos está a infraestrutura necessária em terra, que envolve abastecimento de combustível, sistemas de água e proteção para o retorno do foguete à atmosfera. O consumo de recursos também chama atenção: um único lançamento pode exigir o equivalente a 244 caminhões de gás natural e cerca de 1 milhão de galões de água.
Outro ponto crítico é o reabastecimento em órbita, etapa ainda não testada que envolve transferir combustível entre veículos no espaço. Essa operação é essencial para missões mais longas, como viagens à Lua ou a Marte. “Esse provavelmente é o último grande desafio”, disse Hans Koenigsmann, ex-vice-presidente da SpaceX. A complexidade aumenta porque o combustível precisa ser mantido em temperaturas extremamente baixas, dificultando o armazenamento e a transferência. “Não demonstramos nem testamos o reabastecimento em órbita até agora”, afirmou a empresa.
Starbase e o futuro do programa
Ao longo da última década, a SpaceX construiu no Texas uma base dedicada ao desenvolvimento da Starship, chamada Starbase. O local foi estruturado para permitir produção em maior escala, com um ritmo mais próximo ao da indústria aeronáutica do que ao padrão tradicional do setor espacial. As falhas registradas durante os testes levaram a centenas de mudanças no projeto do foguete.
A empresa se prepara agora para um novo voo de teste — o primeiro desde outubro — que deve marcar a estreia do protótipo Starship V3. “A versão 3 é basicamente um projeto totalmente novo”, disse Charlie Cox, diretor de engenharia da Starship. Com diversas melhorias, o modelo foi projetado para voos orbitais, testes mais longos no espaço e missões tripuladas à Lua. Essa etapa é considerada uma das mais desafiadoras do programa Artemis, da NASA, que já destinou ao menos US$ 3 bilhões à SpaceX. “Muita coisa vai depender desse primeiro voo”, afirmou Kent Chojnacki, da NASA.



