Transplante de córnea agora disponível na rede municipal do Rio de Janeiro
A rede municipal de saúde do Rio de Janeiro passou a realizar transplantes de córnea, ampliando o acesso a esse procedimento oftalmológico essencial para milhares de pacientes. A iniciativa representa um avanço significativo no sistema público de saúde da cidade, que agora conta com mais uma opção para atender à demanda reprimida.
Fila de espera supera 5,5 mil pessoas no estado
O desafio, no entanto, permanece considerável. A fila de espera regulada pelo Programa Estadual de Transplantes reúne atualmente 5.559 pessoas aguardando por uma córnea que lhes permita recuperar a visão. Esse número expressivo evidencia a necessidade urgente de aumentar o número de doadores no estado.
"Por ser um tecido que não precisa de compatibilidade, quanto mais número de doadores tivermos, mais olhos vamos salvar", explicou Luiz Frederico Regis Pacheco, coordenador médico do Centro Carioca do Olho, unidade municipal que foi recentemente credenciada pelo Ministério da Saúde para realizar o procedimento.
História de Aline: 20 anos de luta pela visão
Aline Domingues da Costa personifica a importância desse avanço na saúde pública. Diagnosticada com ceratocone há 20 anos, logo após o nascimento do filho, ela viu sua visão se deteriorar progressivamente ao longo das décadas.
"Era um bebê de 9 meses. E o mundo acabou, né? Como você acaba de ter um filho, porque ter um filho foi sempre um sonho da minha vida", relembra Aline sobre o momento do diagnóstico. "Dizia: se eu morrer sem ser mãe, não vou ser feliz."
A ceratocone é uma doença que compromete a estrutura da córnea, fazendo com que ela perca seu formato arredondado e adquira a aparência de um cone. Mais comum entre a população jovem, a condição afeta drasticamente a qualidade de vida dos pacientes.
"Não podia sair sozinha que não enxergava número de ônibus, não conseguia ter noção da altura da calçada", conta Aline. "Por várias vezes, eu caí, mesmo acompanhada. Me afoguei porque não tinha noção da profundidade da piscina."
Primeira paciente no Centro Carioca do Olho
Após buscar atendimento em dois hospitais universitários sem sucesso no tratamento, o quadro de Aline se agravou tanto que a única alternativa restante era o transplante de córnea. No dia 10 de março, ela finalmente conseguiu realizar a cirurgia, tornando-se a primeira paciente a passar pelo procedimento no Centro Carioca do Olho após o credenciamento da unidade.
"As pessoas acham que a córnea é menos importante que um coração, do que um rim, e não é", reflete Aline. "Ela muda a vida de qualquer pessoa, como um rim muda, o estômago, intestino, porque cada um tem sua necessidade. A minha necessidade era a córnea."
A paciente acrescenta: "Eu não precisava ter perdido tanta coisa na minha vida se eu tivesse sido bem assistida, como eu estou sendo agora." Com a visão recuperada, Aline já faz novos planos para o futuro: "Quero voltar a estudar, quero viajar."
Ampliação da capacidade cirúrgica
De acordo com Alexandre Modesto, coordenador geral do Super Centro Carioca de Saúde, o credenciamento da instituição amplia significativamente a capacidade de realizar cirurgias desse tipo na rede pública. A integração a um centro de referência habilitado para procedimentos de alta complexidade representa um marco na oftalmologia municipal.
Como se tornar um doador de córnea
Para que mais histórias como a de Aline tenham um novo começo, é fundamental aumentar o número de doadores. No Brasil, a doação de órgãos e tecidos só pode ser feita com a autorização dos familiares, tornando essencial que as pessoas comuniquem, em vida, seu desejo de ser doador.
No caso específico do transplante de córnea, os critérios são mais amplos:
- O doador pode ter entre 2 e 80 anos de idade
- O uso de óculos ou lentes de contato não são impeditivos para a doação
- As principais contraindicações são doenças transmissíveis
O transplante de córnea na rede municipal do Rio representa não apenas um avanço técnico, mas uma esperança concreta para milhares de cariocas que aguardam por uma chance de voltar a enxergar com clareza. A iniciativa demonstra como a expansão de serviços especializados no sistema público pode transformar vidas e oferecer novas perspectivas para pacientes com condições oftalmológicas graves.



