Menino de 9 anos morre após sete atendimentos médicos em Campo Grande
Menino de 9 anos morre após sete atendimentos em MS

Tragédia em Campo Grande: Menino de 9 anos morre após sete tentativas de atendimento médico

Um caso que chocou a comunidade de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, ganhou novos detalhes com a divulgação de um documento interno da Santa Casa da cidade. O menino João Guilherme Jorge Pires, de apenas 9 anos, faleceu após uma sequência de sete atendimentos médicos em diferentes unidades de saúde, levantando sérias questões sobre a qualidade do socorro prestado.

Detalhes alarmantes do atendimento final

De acordo com o relatório médico ao qual o g1 teve acesso, o tubo utilizado para auxiliar na respiração do paciente estava mal fixado no momento do socorro. A criança foi transportada pelo Samu já em estado gravíssimo, após apresentar uma piora abrupta em seu quadro de saúde. Tudo começou com um trauma na perna sofrido dias antes, quando João Guilherme foi diagnosticado com fratura e teve o membro imobilizado.

Na noite do dia 6 de abril, o menino chegou à UPA Universitário com sintomas preocupantes: baixa oxigenação, alteração do nível de consciência e extremidades arroxeadas. Seu estado se deteriorou rapidamente, exigindo entubação de emergência. Durante os procedimentos, os profissionais relataram grande quantidade de sangue nas vias aéreas.

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Falha crítica durante transferência

Quando a equipe do Samu chegou para realizar a transferência, o paciente já estava em parada cardiorrespiratória. Foi nesse momento crítico que se constatou o problema com o tubo de respiração. Os socorristas iniciaram imediatamente manobras de reanimação e conseguiram reestabelecer os batimentos cardíacos.

João Guilherme foi encaminhado à Santa Casa, onde chegou por volta de 0h10, ainda entubado e sob medicação. No hospital, seu quadro permaneceu extremamente grave. A equipe médica realizou novos procedimentos, incluindo preparativos para troca do tubo, mas o paciente sofreu múltiplas paradas cardíacas e passou por oito ciclos de reanimação.

Apesar de todos os esforços, o menino apresentava sangramento ativo pelas vias aéreas e não reagia aos estímulos. A morte foi confirmada às 1h05, encerrando uma noite de tentativas desesperadas para salvar sua vida.

Percalços nos sete atendimentos

Em um período de apenas seis dias, João Guilherme passou por sete atendimentos médicos em diferentes unidades: UPA Tiradentes, UPA Universitário e Santa Casa de Campo Grande. Segundo relatos familiares, na maioria das vezes ele recebeu medicação e foi liberado, mesmo com a piora progressiva das dores.

Além da dor no joelho fraturado, o menino começou a reclamar de dores no peito, que em um dos atendimentos foram atribuídas à ansiedade. Na véspera de sua morte, ele apresentou sintomas ainda mais graves: manchas roxas pelo corpo, palidez, falta de ar e episódios de desmaio.

A família alega que exames mais detalhados não foram realizados no início do tratamento e que houve demora significativa no atendimento quando o estado de saúde do menino começou a se deteriorar rapidamente.

Investigações em andamento

O caso está sendo investigado pela Polícia Civil e pela Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande (Sesau). A apuração está sob responsabilidade da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA), que analisa minuciosamente os prontuários médicos para verificar possíveis falhas ou omissões nos atendimentos.

O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul (CRM-MS) e o Conselho Municipal de Saúde também acompanham o caso para apurar possíveis responsabilidades dos profissionais e das unidades de saúde envolvidas. Em nota oficial, a Sesau informou que o caso está sendo analisado com base nos registros médicos e que, se forem identificadas falhas ou desvios de conduta, as medidas cabíveis serão tomadas.

Valdemar Moraes, presidente da Associação de Vítimas de Erros Médicos de Mato Grosso do Sul, afirmou que há indícios claros de falhas no atendimento. "A demora no atendimento de fazer uma tomografia, um raio x e isso é um erro médico", declarou o representante, defendendo uma investigação rigorosa.

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Questões não respondidas

A causa oficial da morte ainda aguarda confirmação através do resultado do exame necroscópico solicitado pela Polícia Civil. Durante os diversos atendimentos, alguns profissionais chegaram a levantar a suspeita de formação de coágulo, mas essa hipótese não foi devidamente investigada nos primeiros momentos.

A morte foi registrada como homicídio culposo, caracterizado quando não há intenção de matar, mas ocorre por imperícia, negligência ou imprudência. O sepultamento de João Guilherme ocorreu na quarta-feira (8), enquanto sua família e a comunidade aguardam respostas sobre as circunstâncias que levaram a essa tragédia evitável.