Crise de integridade no setor de saúde brasileiro exige ação conjunta
O setor de saúde do Brasil enfrenta uma grave crise de integridade no período pós-pandemia, marcada pelo avanço de práticas irregulares e falhas de governança que exigem uma nova agenda envolvendo Estado, mercado e sociedade civil. Este foi o diagnóstico central apresentado no painel "A luta por integridade na saúde no Brasil", realizado durante o seminário "Caminhos contra a Corrupção", promovido pelo Instituto Não Aceito Corrupção (INAC).
Dimensão alarmante do problema
Dados apresentados no evento revelam a gravidade da situação. Uma pesquisa do Instituto Ética Saúde indicou que 91% dos agentes do setor percebem aumento da corrupção após a pandemia, especialmente em áreas críticas como compras públicas, contratos hospitalares e gestão de recursos do Sistema Único de Saúde (SUS). Paralelamente, levantamentos mostram uma deterioração significativa da confiança: metade dos médicos afirma não confiar nas operadoras de planos de saúde, enquanto consumidores relatam dificuldades recorrentes como negativas de cobertura e reajustes abusivos.
Perspectivas dos especialistas
O debate, mediado por Renato Porto, presidente executivo da Interfarma, reuniu importantes vozes do setor. Bruno Sobral, diretor executivo da FenaSaúde, destacou que a integridade está diretamente ligada à qualidade dos contratos e aos incentivos econômicos. "A ética também é um instrumento de eficiência na alocação de recursos", afirmou, ao defender modelos contratuais que reduzam distorções e estimulem práticas adequadas.
Eliane Medeiros, diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), apresentou números preocupantes sobre a insatisfação dos usuários: o número de reclamações na agência saltou de cerca de 135 mil em 2019 para 375 mil em 2024. Ela destacou que a resposta da ANS tem sido reformular o modelo de fiscalização, com foco em prevenção, transparência e responsabilização.
Mudança estrutural necessária
O ministro Vinícius Marques de Carvalho, da Controladoria-Geral da União (CGU), defendeu uma transformação profunda na forma de enfrentar a corrupção. Segundo ele, o problema não pode mais ser visto apenas como desvio individual, mas como fenômeno enraizado nas relações econômicas e institucionais. "Não é que a corrupção surgiu agora, mas que ela está sendo mais combatida", afirmou, apresentando dados sobre o aumento da capacidade investigativa do Estado.
Caminhos para o fortalecimento da integridade
Os participantes convergiram na avaliação de que o setor de saúde, pela sua complexidade e volume de recursos, exige soluções integradas. A relação entre público e privado, característica central do sistema brasileiro, amplia tanto os riscos quanto a necessidade de coordenação institucional.
Entre as principais recomendações destacadas estão:
- Ampliação dos mecanismos de prevenção e transparência
- Fortalecimento do controle social e participação cidadã
- Implementação de sistemas de integridade e gestão de riscos nas organizações
- Revisão dos modelos contratuais para reduzir assimetrias de informação
- Maior rastreabilidade das decisões das operadoras de saúde
A discussão reforçou que, diante da centralidade do setor para a população brasileira, a integridade deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar posição estratégica no debate sobre políticas públicas no país. O avanço nessa área depende não apenas de regulação e fiscalização, mas também de maior engajamento da sociedade civil e transparência nas operações.



