Adolescente morre em Belém após crise em hospital público sem neurocirurgiões
Adolescente morre em Belém em hospital sem neurocirurgiões

Adolescente morre em Belém após crise em hospital público sem neurocirurgiões

Uma tragédia familiar chocou o Pará quando Eloan Guilherme Soares, um adolescente de apenas 15 anos, faleceu no Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti, conhecido como "PSM da 14 de Março", em Belém. O jovem enfrentou uma série de obstáculos no sistema de saúde público, incluindo a ausência crítica de neurocirurgiões na unidade, que é referência na capital paraense para emergências neurológicas.

Busca desesperada por atendimento

A família de Eloan viajou aproximadamente 143 quilômetros desde Igarapé-Miri até Belém, com um encaminhamento médico por suspeita de meningite. No entanto, o menino foi negado em vários hospitais públicos antes de finalmente ser admitido no PSM da 14 de Março no dia 17 de março. Lá, ele passou por uma cirurgia de emergência para drenar excesso de líquido no cérebro, mas o material coletado para exames desapareceu, segundo relatos do pai, Eliel Soares.

"Foi uma negligência, largaram ele lá", desabafou Eliel em entrevista, descrevendo o que chamou de "descaso total" que custou a vida do filho. Durante a internação, Eloan apresentou sintomas graves como tremores, vômitos, febre alta e curativos que não aderiam à pele, enquanto a família clamava por respostas que nunca chegaram.

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Crise estrutural no hospital

O PSM da 14 de Março enfrenta uma crise profunda nos serviços de neurologia e neurocirurgia, com a paralisação dessas especialidades há mais de duas semanas devido à falta de profissionais. O Conselho Regional de Medicina do Pará (CRM-PA) alertou que pacientes estão dormindo nos corredores à espera de atendimento, elevando riscos de óbito, agravamento e sequelas para vítimas de traumas cranioencefálicos.

A suspensão dos serviços ocorreu por suposta falta de pagamento aos médicos desde novembro de 2025, um fato não reconhecido pela secretária municipal de Saúde, Dyjane Amaral. Enquanto isso, a prefeitura alega que pacientes estão sendo transferidos para unidades particulares credenciadas, mas o CRM-PA critica essa medida como uma tentativa de "sucatear" o serviço público.

Falta de assistência e omissão

No dia em que os neurocirurgiões entraram em greve, a família de Eloan foi orientada a aguardar 48 horas por uma vaga em UTI com suporte especializado, mas o serviço já estava paralisado. O adolescente, em estado agitado e sem abrir os olhos, ficou amarrado à cama, sem visitas próximas ou hidratação adequada, conforme relatado pelos familiares.

"Eu pedia água pra ele, que tinha sede, mas não deixavam ficar perto. No dia 20, tremia muito, e no sábado (21) soubemos que tinha falecido às 15h, mas eu acho que ele já havia falecido há um dia, e não nos avisaram", acusou Eliel Soares, emocionado.

Repercussão judicial e pedido por justiça

O caso de Eloan foi citado em uma ação movida pela Defensoria Pública do Estado do Pará (DPE/PA) contra a Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), impetrada na segunda-feira (30). A ação aponta omissão da Sesma em responder a um ofício sobre a crise que compromete o atendimento a traumas graves no PSM da 14 de Março.

Eliel Soares, que descreve o filho como "alegre, inteligente, sorria pra todo mundo", fez um apelo emocionado: "Nós pagamos impostos e, na hora que precisa, nos negligenciam. Espero justiça, que não aconteça com outras crianças". A família aguarda respostas enquanto luta para superar a perda.

Contexto ampliado da crise

Além da falta de neurocirurgiões, o hospital enfrenta outros problemas graves, como desabastecimento de medicamentos renais, que já levaram a ações judiciais com tutelas de urgência deferidas. Uma adolescente com síndrome nefrótica, por exemplo, chegou a ficar internada sem tratamento adequado, ilustrando a dimensão sistêmica das falhas.

A Defensoria Pública cobrou explicações da Sesma via ofício, questionando a paralisação, pendências financeiras, vínculo dos médicos e medidas emergenciais, mas não obteve resposta até o momento. O g1 também procurou a Sesma para um novo posicionamento sobre o caso de Eloan, mas não havia obtido retorno até a última atualização desta reportagem.

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Enquanto isso, a prefeitura nega falta de atendimentos e anuncia contratação emergencial de neurologia, mas especialistas temem que a situação continue colocando vidas em risco. A unidade, que recebe em média 150 casos diários de neurologia e neurocirurgia, permanece como um ponto crítico na saúde pública de Belém, com famílias como a de Eloan pagando o preço mais alto.