Coração feminino: a cada 12 minutos uma mulher morre de infarto no Brasil
Saúde do coração da mulher em todas as fases da vida

Um alerta urgente mobiliza a comunidade médica brasileira: as doenças cardiovasculares são uma das principais causas de morte entre as mulheres no país. Dados alarmantes mostram que, a cada 12 minutos, uma brasileira morre vítima de infarto. Além disso, a cada dez minutos, uma mulher perde a vida devido a um acidente vascular cerebral (AVC).

Um guia para a vida inteira: do primeiro ao último ciclo

Diante desse cenário crítico, especialistas de renome nacional se uniram para criar um documento fundamental: o "Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher". Este guia abrange todos os estágios da vida feminina, desde a infância até a pós-menopausa, oferecendo uma visão integrada dos riscos e das formas de prevenção.

O objetivo principal é equipar os médicos com conhecimento detalhado sobre os fatores específicos que desencadeiam problemas cardíacos em suas pacientes. O documento destaca que o próprio organismo da mulher, em suas diversas fases biológicas, pode ser um gatilho para doenças cardiometabólicas.

Fases da vida e seus riscos cardiovasculares

O posicionamento traça um panorama minucioso dos momentos de maior vulnerabilidade. A menarca precoce, por exemplo, frequentemente associada à obesidade infantil, pode antecipar problemas como hipertensão, dislipidemia e resistência à insulina, pavimentando o caminho para eventos cardíacos futuros.

No extremo oposto, a menarca tardia, que pode ser consequência de transtornos alimentares como a anorexia ou de exercícios físicos em excesso, também se mostra um fator de risco para complicações cardiometabólicas mais tarde.

Outras condições ginecológicas e reprodutivas recebem atenção especial. A síndrome dos ovários policísticos e as irregularidades menstruais, marcadas por flutuações hormonais, elevam as chances de desenvolver hipertensão, obesidade e alterações nocivas no perfil de colesterol e triglicérides.

A lista de alertas segue pela idade adulta. Diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, infertilidade, uso de contraceptivos hormonais e a própria menopausa são citados como eventos que podem abrir "janelas" de oportunidade para o surgimento de doenças cardiovasculares graves, como insuficiência cardíaca, infarto e AVC.

Além da biologia: a carga mental e social

O documento vai além dos aspectos puramente biológicos. Ele reconhece que a saúde mental da mulher é um componente crucial nessa equação. As mulheres estão mais sujeitas a condições como estresse e depressão, muitas vezes agravadas pela sobrecarga de tarefas – conciliando trabalho, cuidados com a casa e a família.

Essa rotina extenuante frequentemente leva à negligência dos autocuidados, com a saúde própria sendo colocada em segundo plano, priorizando-se o bem-estar de terceiros. Este fator psicossocial é um importante agravante do risco cardiovascular.

Prevenção e cuidado integrado: o caminho para mudar as estatísticas

A chave para reverter essas estatísticas sombrias, segundo os especialistas, é a identificação precoce do risco elevado. Quanto antes uma propensão for detectada, mais cedo podem ser iniciadas intervenções eficazes, evitando-se esperar por manifestações clínicas severas e muitas vezes fatais.

A primeira linha de ação é sempre a mudança para um estilo de vida mais saudável, com a adoção de uma dieta balanceada e a incorporação de atividade física na rotina. Em muitos casos, essas medidas são suficientes para afastar desfechos graves.

Quando necessário, o tratamento pode avançar para a prescrição de medicamentos ou até mesmo para indicações de procedimentos cirúrgicos. No entanto, os autores do posicionamento fazem um alerta importante: historicamente, as mulheres têm sido subdiagnosticadas e subtratadas em comparação com os homens.

Para combater essa disparidade, o documento, elaborado por dezenas de especialistas do Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia, da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, recomenda uma atuação articulada e proativa entre cardiologistas, ginecologistas/obstetras e endocrinologistas.

Este monitoramento conjunto e contínuo da saúde feminina em todas as fases da vida é visto como a estratégia mais promissora para melhorar os resultados a longo prazo. A meta é clara: reduzir a mortalidade, diminuir a ocorrência de eventos cardiovasculares e, acima de tudo, proporcionar uma melhor qualidade de vida para todas as mulheres.

*Maria Cristina Izar é cardiologista, presidente da Socesp (biênio 2024/2025) e professora adjunta livre docente da Disciplina de Cardiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).