A dor silenciosa das tentantes: quando parar de tentar engravidar é a saída
Jornada da infertilidade: a difícil decisão de parar de tentar

A narrativa do "nunca desista" é frequentemente celebrada como uma virtude. No entanto, para Caroline Stafford e seu marido Gareth, a decisão mais corajosa foi justamente a de interromper uma busca que durou anos: a de formar uma família biológica. Sua trajetória, marcada por tratamentos de fertilidade exaustivos e uma perda devastadora, revela o custo emocional de desafiar essa pressão social e encontrar paz em um futuro diferente do planejado.

A montanha-russa emocional dos tratamentos

Caroline e Gareth, que se conheceram ainda na escola em Nottinghamshire, no Reino Unido, sempre presumiram que ter filhos seria um passo natural. Após um ano tentando engravidar sem sucesso, buscaram ajuda médica. O casal embarcou então em uma jornada árdua de fertilização in vitro (FIV), iniciada no Reino Unido e continuada com ciclos no exterior, um processo repleto de ansiedade, medicamentos e injeções.

Paralelamente, Caroline via suas amigas engravidarem e terem bebês, um contraste que gerava uma dor profunda. "Ficamos absolutamente felizes por elas, mas a verdade é que era a pior coisa de ouvir", confessou ela ao programa da BBC Ready to Talk with Emma Barnett. Essa exposição constante começou a mudar sua personalidade, tornando sua visão de mundo mais negativa e alimentando um sentimento de inveja que a corroía por dentro.

O ponto de virada: uma perda no dia de Natal

Há seis anos, após ouvirem conselhos para "relaxar", Caroline engravidou naturalmente. A alegria, no entanto, foi brutalmente interrompida. Na manhã de Natal, enquanto Gareth cuidava do rebanho de leite da fazenda onde moravam em Rutland, ela sofreu um aborto espontâneo. A data e a forma como aconteceu foram sentidas como um golpe particularmente cruel.

Esse momento trágico representou um divisor de águas. "Parecia que ambos sabíamos que era hora de começar a tentar deixar ir", relembra Caroline. Aceitar que o sonho da grande família não se concretizaria exigiu um enorme esforço emocional e significou superar a internalizada cultura do esforço infinito.

Reconstruindo a vida e encontrando um novo propósito

Para seguir em frente, o casal precisou redefinir suas vidas completamente. Caroline canalizou sua energia para um negócio de biscoitos com mensagens personalizadas, que havia começado durante o segundo ciclo de FIV. O que antes a irritava – ouvir que o empreendimento era seu "bebê" – hoje lhe traz conforto, pois é algo que ela nutre e vê crescer há uma década. Atualmente, sua padaria emprega 14 pessoas e entrega produtos para todo o país.

Gareth também repensou sua carreira, prestes a iniciar um novo trabalho em um campo de golfe. Caroline ainda transformou sua relação com o próprio corpo, antes vista apenas por sua "falha" reprodutiva. Ao começar a correr longas distâncias, passou a celebrar suas capacidades. Ela já completou quatro maratonas e meia, enquanto Gareth está na sexta.

O caso de Caroline e Gareth reflete uma tendência demográfica significativa. No Brasil, os casais sem filhos representaram a composição familiar que mais cresceu neste século, saltando de 13,0% em 2000 para 24,1% (ou 13,9 milhões) em 2022, segundo o IBGE. As razões são diversas, incluindo escolha pessoal, mas para muitos, como eles, é uma realidade que precisa ser aceita após uma luta intensa.

Caroline afirma que hoje ama a vida que tem. A dor aguda da perda deu lugar a uma tristeza mais suave. Mesmo assim, pontadas de culpa ainda surgem, questionando se ela desistiu cedo demais. Ela sabe que a mensagem do "não desista" sempre estará lá, mas aprendeu que o esforço nem sempre garante o resultado desejado. "A vida ainda pode ter significado e propósito, mesmo quando parece drasticamente diferente do que você esperava", conclui, oferecendo uma perspectiva poderosa para quem enfrenta caminhos similares.