Os carros modernos são verdadeiros computadores sobre rodas, e grandes corporações estão utilizando esses veículos para coletar detalhes íntimos sobre a vida dos motoristas e lucrar ainda mais com isso. O que antes simbolizava liberdade e independência agora se transformou em uma fonte de dados valiosos, muitas vezes sem o conhecimento dos condutores.
Coleta de dados em veículos modernos
As montadoras admitem, em suas políticas de privacidade, que coletam uma vasta gama de informações. Isso inclui dados precisos sobre todos os lugares por onde o motorista passa, quem está no carro, o que toca no rádio, se o cinto de segurança é usado, se a velocidade é excedida ou se há frenagens bruscas. Algumas empresas vão além, coletando peso, idade, raça e até expressões faciais. Câmeras internas apontadas para o banco do motorista podem capturar gestos como cutucar o nariz. A maioria dos veículos já sai de fábrica conectada à internet, enviando esses dados continuamente.
Impacto financeiro e falta de transparência
Esse problema de privacidade também afeta o bolso. Seguradoras são grandes clientes desses dados, usando as informações para cobrar preços mais altos de alguns motoristas. No entanto, é difícil saber exatamente para onde os dados vão, pois as montadoras não são obrigadas a revelar os compradores. Segundo Darrell West, pesquisador do Brookings Institute, a maioria dos consumidores desconhece essa prática. "As pessoas ficariam chocadas com a quantidade de dados que seus carros coletam", afirma.
Legislação e expansão da coleta
Uma lei federal nos EUA, prestes a entrar em vigor, exigirá que montadoras instalem câmeras biométricas infravermelhas e sistemas para monitorar linguagem corporal, movimentos dos olhos e comportamento, visando identificar motoristas bêbados ou cansados. Isso abrirá espaço para uma nova leva de dados de saúde e hábitos pessoais, sem regras que limitem o uso dessas informações pelas montadoras.
Vantagens e riscos
Carros conectados oferecem praticidade e sensores que aumentam a segurança. Seguradoras podem cobrar menos de motoristas prudentes. No entanto, com a rápida expansão dos impérios de dados, é crucial entender o que acontece nesse universo.
A supervia dos dados
Segundo a McKinsey, 50% dos carros em 2021 tinham conexão com a internet, número que deve chegar a 95% até 2030. A Mozilla, em 2023, analisou 25 marcas de automóveis e nenhuma atendeu aos padrões de privacidade. O relatório aponta que as montadoras coletam nome, idade, raça, peso, dados financeiros, expressões faciais e tendências psicológicas. A política da Kia, por exemplo, menciona até coleta de dados sobre "vida sexual", embora a empresa negue essa prática.
Venda de dados e casos concretos
Dezenove montadoras admitem vender dados dos usuários. A General Motors (GM) foi alvo de medidas por vender dados de localização sem consentimento. Senadores americanos acusaram Honda e Hyundai de práticas semelhantes. Jen Caltrider, da Mozilla, alerta: "Elas usam os dados para tirar conclusões sobre seu nível de inteligência, perfil psicológico e crenças políticas". Não há regras sobre quem compra esses dados ou para quais finalidades.
Como se proteger
Nos EUA, não há lei federal abrangente de privacidade. Na Europa, há proteções, mas ainda insuficientes. No Brasil, a LGPD regula o compartilhamento de dados. Medidas práticas incluem: não participar de programas de telemetria de seguradoras, solicitar cópia dos dados coletados e exigir exclusão, além de ajustar configurações de privacidade no sistema multimídia do veículo. A Consumer Reports publicou um guia detalhado sobre o tema.
Segundo Caltrider, enquanto as regras não mudarem e os dados não forem realmente dos consumidores, o problema tende a piorar. A conscientização e a ação individual são passos importantes, mas a responsabilidade maior recai sobre legisladores e empresas.



