Carmem Fregonesi, aos 97 anos, moradora de Ribeirão Preto (SP), desafia estereótipos sobre a sexualidade na terceira idade. Com uma rotina autônoma e um namorado quase 30 anos mais novo, ela afirma: "Eu me sinto como sou, mulher. Sempre tive prazer na minha vida, o prazer que eles falam. Agora, não tem esse negócio de ficar toda hora atrás disso. Não é isso só que faz a pessoa feliz". Sua história reflete uma realidade crescente no Brasil, onde o envelhecimento populacional tem levado especialistas a discutirem mais abertamente a atividade sexual entre os mais velhos, desmistificando tabus e abordando alertas de saúde.
Mitos e realidades da sexualidade na velhice
Lucia Alves Silva Lara, ginecologista e coordenadora da residência de Sexologia da USP Ribeirão Preto, explica que o tabu do prazer sexual perpetuou a crença de que a vida sexual termina na velhice. No entanto, evidências científicas contradizem essa ideia. "O prazer sexual persiste após a idade reprodutiva, apesar desses tabus e preconceitos", destaca Paulo de Oliveira Duarte, geriatra de Ribeirão Preto, que estima que 50% dos pacientes acima de 60 anos mantêm relações sexuais, variando conforme estado civil e mobilidade.
Mudanças biológicas e psicológicas
Naturalmente, alterações hormonais afetam a sexualidade. Nas mulheres, a queda dos estrogênios após a menopausa reduz a receptividade a estímulos eróticos, causa ressecamento e impacta a autoimagem. Lucia acrescenta: "A redução dos androgênios ao longo da vida da mulher pode reduzir o desejo sexual espontâneo e responsivo, bem como reduzir a força e frequência do orgasmo". Nos homens, a diminuição da testosterona pode levar à queda do desejo e aumentar riscos de disfunção erétil. Ambos os sexos enfrentam mudanças físicas, psicológicas e socioculturais que influenciam negativamente a saúde sexual.
Mudança de comportamento e aumento da atividade sexual
Apesar das limitações, a atividade sexual tem se tornado mais comum entre pessoas acima de 60 anos. Uma revisão teórica publicada em 2025, por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia e do Instituto Paulista de Sexualidade, encontrou taxas de 58% a 71% de idosos confirmando desejo sexual após os 60. Lucia observa que estudos internacionais mostram tendência similar, atribuída a mudanças socioculturais, como maior acesso à informação via internet, especialmente para mulheres. "Gradualmente, a mulher 60+ tem se preocupado em prover satisfação sexual para si mesma", diz ela, combatendo o mito de que o envelhecimento elimina o prazer.
Alertas de saúde: aumento de ISTs entre idosos
Com maior frequência sexual, surge um alerta: idosos estão menos precavidos com preservativos e pouco interessados em exames para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Dados do Ministério da Saúde revelam um aumento de 129% nos registros de HIV em pessoas acima de 50 anos entre 2001 e 2021. Em São Paulo, apenas 40% dos idosos usaram preservativo na última relação, e 80% acima de 60 anos relataram não usar, principalmente por confiança no parceiro.
Riscos e tendências preocupantes
Paulo Duarte alerta que esse comportamento tem elevado as chances de infecções como sífilis e HIV. Notificações de sífilis adquirida em idosos saltaram de 166 casos em 2010 para 21,6 mil em 2023 no Brasil, com tendência similar em São Paulo. A média anual de diagnósticos de Aids nessa faixa etária também subiu, oscilando entre 1,1 mil e 1,4 mil casos após 2010. Lucia explica que a falta de acesso à informação sobre sexualidade na juventude dos idosos pode contribuir para a menor percepção de risco, mas ressalta que o uso de métodos de barreira é baixo mesmo entre jovens.
Orientações para uma vida sexual segura
Lucia enfatiza a importância de orientar os idosos sobre práticas seguras. "A idade não é uma barreira para a vivência do prazer sexual seja pelo autoerotismo ou pela troca com uma parceria. Quando envolve uma parceria, o risco de contrair IST é iminente. Dessa forma, utilizar a barreira de proteção é fundamental", afirma, recomendando preservativos externos para homens e internos para mulheres. Carmem, por sua vez, atribui sua disposição à atividade física, cuidados com a saúde e apoio familiar, mostrando que felicidade e sexualidade podem coexistir na terceira idade.



