Ruídos coloridos para dormir: especialista analisa eficácia e riscos dos sons contra insônia
Ruídos coloridos para dormir: funcionam contra insônia?

Ruídos coloridos na luta contra a insônia: solução ou moda passageira?

São 2h da manhã, o corpo cansado mas a mente alerta, rolando na cama sem conseguir desligar. Nesse cenário comum a milhões de brasileiros, uma tendência tem ganhado espaço nas redes sociais e aplicativos de música: as playlists de "ruídos coloridos" prometendo embalar o sono. Mas será que esses sons realmente funcionam ou são apenas mais uma promessa vazia?

O problema da insônia no Brasil

Dados recentes do sistema Vigitel, do Ministério da Saúde, revelam uma realidade preocupante: aproximadamente 31,7% dos adultos nas capitais brasileiras relatam dificuldades para dormir, enquanto 20,2% dormem menos de seis horas por noite - tempo considerado insuficiente para a recuperação adequada do organismo. É nesse contexto de busca por soluções que os ruídos branco, rosa, marrom e outras variações ganharam popularidade.

O que são ruídos coloridos?

Segundo a médica otorrinolaringologista Cíntia Felicio Adriano Rosa, especialista em medicina do sono, o termo "ruído colorido" se refere a diferentes tipos de som que variam conforme a distribuição das frequências. "No ruído branco, por exemplo, todas as frequências têm a mesma intensidade. Já em outros tipos, algumas frequências se sobressaem", explica a especialista.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

A ideia por trás do uso desses sons para dormir se apoia em três hipóteses principais:

  • Redução do nível de alerta do corpo, com evidências limitadas de que sons de banda larga podem diminuir frequência cardíaca e respiratória
  • Atuação como "mascarador" de sons externos incômodos
  • Criação de associação cerebral como sinal de que é hora de dormir

Diferenças entre os tipos de ruído

Ruído branco: O mais conhecido e estudado, abrange ampla faixa de frequências (20 Hz a 20.000 Hz) com mesma intensidade, criando som constante de "zumbido". Ajuda a mascarar ruídos, mas algumas pessoas o consideram alto e estridente.

Ruído rosa: Concentra mais energia nas frequências graves e suaviza nos agudos, lembrando chuva ou vento constante. Estudo de 2017 na Frontiers in Human Neuroscience associou este som à melhora da memória e qualidade do sono em adultos mais velhos.

Ruído marrom: Intensifica ainda mais os sons graves, criando som profundo e contínuo que pode lembrar trovão distante ou ondas do oceano. "Há quem prefira o rosa ou o marrom por serem mais suaves e, subjetivamente, mais confortáveis", comenta Cíntia.

Críticas e riscos importantes

Apesar da popularidade crescente, o uso desses ruídos não está livre de controvérsias. "As evidências científicas ainda são limitadas, com estudos pequenos e metodologias diferentes", pondera a especialista. Outros pontos de atenção incluem:

  1. Mascaramento de sinais ambientais importantes como alarmes
  2. Riscos à saúde auditiva com uso de fones em volumes elevados
  3. Possível interferência na arquitetura do sono, reduzindo tempo de sono REM
  4. Contradição com recomendações de higiene do sono que orientam evitar telas antes de dormir
  5. Risco de mascarar problemas maiores e adiar busca por avaliação médica

Pilares fundamentais do bom sono

No final, o consenso entre especialistas está menos no tipo de som e mais nos hábitos que cercam o sono. "Rotina regular, exposição à luz ao longo do dia, evitar estimulantes à noite e manter ambiente escuro, silencioso e com temperatura adequada continuam sendo pilares difíceis de substituir", destaca Cíntia.

Os ruídos coloridos podem até ajudar algumas pessoas, especialmente em ambientes barulhentos, mas estão longe de ser solução universal. A médica orienta: "Se o problema persistir, o caminho é procurar avaliação médica". Mais importante que apertar o play é observar o próprio corpo e testar com critério, sempre priorizando a saúde auditiva e buscando orientação profissional quando necessário.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar