O falecimento do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, trouxe à tona novamente o debate sobre os limites saudáveis da prática esportiva e os riscos do uso de anabolizantes. Encontrado morto neste fim de semana, o atleta teve como causa da morte a cardiomiopatia hipertrófica, conforme o atestado de óbito.
O que é cardiomiopatia hipertrófica?
Essa doença é caracterizada pelo espessamento anormal do músculo cardíaco, podendo ser genética ou adquirida ao longo da vida, inclusive pelo uso de anabolizantes. Nas redes sociais, Ganley havia mencionado que utilizava insulina, considerada um tipo de anabolizante. Semanas antes, ele passou mal com hipoglicemia após aplicar o hormônio em um dia de alimentação restrita.
Repercussão e contexto
O caso ganhou grande repercussão devido à forte presença do atleta nas redes sociais e por sua juventude. No entanto, não se trata de um fato isolado. Nos últimos meses, o g1 noticiou diversas mortes de praticantes de fisiculturismo, algumas relacionadas ao uso de anabolizantes e outras por problemas cardíacos.
Especialistas afirmam que a prática pode ser realizada de forma saudável, mas reconhecem que o fisiculturismo é um dos esportes que mais exige do organismo. "Para chegar a um físico de competição, o atleta passa por fases de treino intenso, cuidados alimentares extremos e, muitas vezes, pouca recuperação", analisa o endocrinologista e médico do esporte Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Os pilares de uma prática saudável
Para que o fisiculturismo seja saudável, três pilares devem ser equilibrados:
- Treino: Deve ser estruturado, com fases de ganho de massa e definição muscular. Átila Alexandre, professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP de Ribeirão Preto, explica que o treino gera estresse que leva ao desenvolvimento muscular, mas é essencial a recuperação. "Não adianta treinar até a exaustão todos os dias. O músculo cresce enquanto descansa", alerta Macedo.
- Dieta: A alimentação é crucial, com consumo adequado de proteínas e ajuste de carboidratos conforme o treino. Na fase de definição, a dieta é mais restrita, mas deve ser feita gradualmente e com acompanhamento nutricional.
- Descanso: Muitas vezes ignorado, o descanso é fundamental. Dormir bem, controlar o estresse e respeitar os dias de recuperação são essenciais para o fortalecimento do corpo.
Além disso, exames periódicos de sangue e coração, orientação médica e nutricional, evitar substâncias proibidas e manter hidratação adequada são cuidados importantes. Átila ressalta o respeito à genética individual: "As pessoas têm genéticas diferentes e, por isso, serão capazes de atingir resultados diferentes."
Os perigos dos anabolizantes
O uso de hormônios sintéticos contribui para o desequilíbrio do organismo. "O corpo é muito inteligente e trabalha com mecanismo de feedback. Quando detecta testosterona injetada, interpreta que pode parar de produzir", explica Átila. As consequências são graves:
- Coração: risco de infarto, AVC, embolia, morte súbita, arritmia e hipertensão.
- Fígado e rins: inflamações, insuficiência e tumores.
- Hormônios: parada da produção natural de testosterona, levando a infertilidade e impotência.
- Humor: aumento de agressividade, irritação e depressão.
- Mulheres: voz grossa, calvície, aumento do clitóris, pelos, acne, alterações menstruais e infertilidade.
"Não existe dose segura de esteroides anabolizantes para o fisiculturismo. As doses precisam ser cavalares e não há acompanhamento médico que garanta segurança", alerta Clayton.
Riscos adicionais
Outra prática comum e perigosa é o corte de água e sal antes das competições para parecer mais "seco". Isso pode causar arritmia, desmaios, queda de pressão, trombose, problemas renais e morte súbita.
Os médicos ponderam que os riscos são reais e imprevisíveis. "O fisiculturismo exige disciplina e controle, mas precisa ser praticado com ciência e responsabilidade", conclui Clayton. Equilibrar treino, alimentação e descanso, evitar substâncias químicas e estratégias radicais é fundamental para a sustentabilidade da modalidade a longo prazo.



