Jovens abandonam álcool e cigarro como símbolos de maturidade, revela psiquiatra especialista
No passado, era comum ver adolescentes segurando um cigarro em uma mão e uma bebida alcoólica na outra, tentando imitar comportamentos adultos para se sentirem mais maduros. Essa realidade, no entanto, está mudando radicalmente, conforme destaca o psiquiatra e especialista em dependência química Arthur Guerra. Neste Dia Nacional de Combate às Drogas e Alcoolismo, dados revelam uma transformação significativa nos hábitos dos brasileiros.
Abstenção atinge 64% da população brasileira
O relatório "Álcool e a Saúde dos Brasileiros – Panorama 2025", elaborado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), apresenta números impressionantes: 64% dos brasileiros afirmam não ter consumido álcool durante todo o ano de 2025, representando um salto considerável em relação aos 55% registrados em 2023. Entre os jovens de 18 a 24 anos, a mudança é ainda mais marcante: a proporção dos que declaram não ter bebido passou de 46% para 64% no mesmo período.
Para o psiquiatra Arthur Guerra, essa redução no consumo acompanha uma tendência internacional. "Essa redução segue um padrão mundial, não só no Brasil, mas nos outros continentes. É uma tendência nesse momento", afirma o especialista. Ele ressalta que o abuso de álcool e mesmo a dependência deixaram de ser vistos como algo chic e sofisticado na sociedade contemporânea.
Mudança cultural entre os jovens
Guerra observa uma transformação cultural profunda entre as novas gerações. "O consumo de álcool para que o jovem fique alcoolizado é um comportamento cada vez menos frequente", explica. Segundo ele, enquanto o consumo eventual e social ainda é tolerado, o excesso perdeu espaço nas interações juvenis. O psiquiatra destaca que os jovens não precisam mais de símbolos como álcool e cigarro para se sentirem adultos, representando uma evolução nos valores sociais.
Outros dados da pesquisa domiciliar realizada pela Ipsos a pedido do CISA mostram padrões consistentes:
- Entre pessoas com ensino superior, a abstenção passou de 49% para 62%
- O uso abusivo caiu de 17% para 15% na população geral
- 82% dos consumidores abusivos acreditam beber de forma moderada
- Apenas 9% reconhecem que bebem excessivamente e precisam mudar
Paradoxo brasileiro: menos consumo, mais internações
Apesar do avanço na abstenção, os impactos do álcool na saúde pública seguem elevados no Brasil. Entre 2010 e 2024, as internações relacionadas ao consumo cresceram 24,2% no país. O relatório utilizou dados do Datasus e aplicou as Frações Atribuíveis ao Álcool recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para estimar o impacto do consumo em diferentes doenças.
Um dado preocupante diz respeito às pessoas com 55 anos ou mais. Nesta faixa etária houve crescimento de aproximadamente 105% nas internações atribuíveis ao álcool entre 2010 e 2024. Esta foi a única faixa etária com aumento consistente na mortalidade por álcool no período analisado, com alta de 51% entre 2010 e 2023.
Cenário global ainda preocupante
Segundo a OMS, embora o consumo per capita tenha diminuído levemente desde 2010, o impacto do álcool permanece significativo mundialmente. Em 2019, o álcool foi responsável por:
- 2,6 milhões de mortes (4,7% do total global)
- 115,9 milhões de anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (4,6% da carga mundial de doenças)
O consumo médio global foi de 5,5 litros por adulto ao ano em 2019, com Europa e Américas registrando níveis acima da média mundial.
Benefícios da redução do consumo
Guerra destaca que diminuir ou interromper o consumo de álcool traz ganhos importantes para a saúde:
- Perda de peso
- Melhora do sono e qualidade de vida
- Sensação de segurança
- Melhora na ansiedade
- Melhora da função hepática
- Melhora na capacidade cognitiva – atenção, pensamento e memória
- Melhora do sistema cardiovascular
- Menor risco de desenvolver câncer
"O álcool é muito calórico. Não dá para fazer regime, perder peso se não cortar bebida alcoólica. Quando a pessoa para de beber, de imediato há uma melhora no pensamento, na atenção, na memória", afirma o psiquiatra.
Desafio para políticas públicas
O Brasil vive hoje um cenário paradoxal: enquanto mais pessoas, especialmente jovens, afirmam não consumir álcool, os danos associados à substância continuam pressionando o sistema de saúde. Os dados mostram que a redução do consumo não elimina automaticamente os impactos acumulados ao longo dos anos, indicando que o desafio vai além da escolha individual e exige políticas públicas consistentes de prevenção e cuidado.
A transformação cultural observada entre os jovens, que abandonam progressivamente o álcool e o cigarro como símbolos de maturidade, representa um avanço significativo, mas a jornada para reduzir os danos do álcool na sociedade brasileira ainda tem um longo caminho pela frente.



