Surto de hantavírus em cruzeiro acende alerta, mas não pânico
A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou dois casos de hantavírus entre passageiros de um cruzeiro ancorado em Cabo Verde. Até o momento, são sete casos identificados, sendo dois confirmados em laboratório e cinco suspeitos, com três mortes registradas. Um paciente encontra-se em estado crítico, enquanto outros três apresentam sintomas leves. O infectologista Eduardo Toffoli Pandini, em artigo para VEJA, explica que há motivo para alerta, mas não para pânico.
Origem do surto e transmissão
Ainda não se conhece a origem exata do surto, mas tudo indica que o primeiro indivíduo a adoecer já embarcou no navio infectado. Segundo a OMS, essa pessoa subiu a bordo em 1º de abril, apresentou sintomas em 6 de abril e faleceu em 11 de abril. Esse detalhe é crucial: não se trata de um surto iniciado dentro do navio, mas possivelmente amplificado pelo ambiente confinado.
Os hantavírus são transmitidos geralmente por urina, saliva e fezes de roedores. Em situações de contato próximo e prolongado, como em um cruzeiro, pode ocorrer transmissão entre pessoas. Um dos candidatos a agente desse surto é o Andesvírus, que circula na Argentina e é um dos poucos hantavírus capazes de se espalhar ocasionalmente entre humanos.
Sintomas e letalidade
A doença se manifesta entre uma e oito semanas após o contato inicial. Os primeiros sintomas são inespecíficos: febre, dor de cabeça, dores no corpo, náuseas, vômitos e dor abdominal. Em casos graves, especialmente com o Andesvírus, pode ocorrer insuficiência respiratória, tosse, falta de ar e acúmulo de líquido nos pulmões devido a um intenso processo inflamatório. Outras variantes podem causar sangramentos pulmonares, queda da pressão arterial e insuficiência renal. A taxa de mortalidade é elevada, podendo chegar a 50%.
Risco epidêmico e medidas de controle
Diante desse cenário, é natural o receio de que o vírus se espalhe. No entanto, de acordo com o conhecimento atual, a chance de transmissão sustentada de pessoa para pessoa é muito baixa. Não se trata de um vírus com potencial epidêmico amplo. A principal preocupação permanece restrita aos passageiros e tripulantes do navio, devido ao ambiente fechado que facilita transmissões pontuais.
O risco de uma nova pandemia é considerado improvável. Os casos estão limitados a um ambiente isolado e passível de controle. Passageiros com sintomas estão sendo encaminhados a hospitais com leitos de isolamento. Os demais ocupantes do navio foram orientados a manter isolamento entre si e garantir boa ventilação dos ambientes internos.
Recomendações da OMS
A OMS não recomenda restrições a viagens internacionais, seja à Argentina ou a qualquer outro país. Informação de qualidade, vigilância epidemiológica e respostas proporcionais ao risco real são as melhores ferramentas para evitar tanto a disseminação do vírus quanto a do medo.
Os próximos passos devem ser observados com atenção, mas sem alarmismo. Será fundamental acompanhar se surgirão novos casos e, principalmente, se haverá qualquer evidência de transmissão sustentada entre pessoas, algo inédito que justificaria maior preocupação.



