Consumo excessivo de proteínas pode engordar e causar danos renais
A busca pelo corpo ideal movimenta academias, influencia regimes alimentares e impulsiona o mercado de produtos que prometem resultados rápidos, com a palavra "proteína" sendo o principal atrativo comercial. Ela se tornou presença constante em leites, pães, iogurtes, barras, biscoitos e até bolos industrializados. Uma investigação do Fantástico consultou especialistas que alertaram: o consumo exagerado desse nutriente fundamental pode, paradoxalmente, aumentar o peso corporal e trazer sérios riscos à saúde.
Proteína em excesso se transforma em gordura
"Se a gente consome proteína em excesso, a gente não vai aproveitar essa proteína para sua finalidade principal, que seria a constituição corporal e formação de massa muscular. Isso vai ser armazenado de alguma forma no organismo e pode virar gordura corporal", explica a nutricionista Lara Natacci. Os especialistas entrevistados pela reportagem destacaram que a proteína é essencial para o funcionamento do corpo humano, participando da formação de músculos, tecidos, hormônios e enzimas. No entanto, a recomendação diária varia conforme o perfil individual, e o exagero pode ser prejudicial.
Atualmente, existem divergências significativas entre orientações nutricionais internacionais. Enquanto a nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos sugere aumentar a ingestão de proteína animal, a Organização Mundial da Saúde recomenda quantidades menores. "Ela está orientando a 50% a mais proteína do que a Organização Mundial da Saúde. Os Estados Unidos recomendam 1,2 a 1,6 gramas de proteína por quilo. A Organização Mundial da Saúde, 0,8 até 1,2 gramas", detalha a nutricionista e pesquisadora da USP, Sophie Deram.
Recomendações adaptadas à realidade brasileira
Os nutricionistas ressaltam que nem sempre essas diretrizes estrangeiras fazem sentido para os hábitos alimentares do brasileiro. Idosos, pessoas em tratamento para ganho de massa muscular ou indivíduos em dietas de emagrecimento podem necessitar de maior quantidade de proteína. Porém, para a maioria da população, a recomendação básica permanece em torno de 1 grama por quilo de peso por dia — distribuída ao longo das refeições, e não concentrada em uma única refeição.
"Um mito: 'quanto mais proteína, mais músculo'. Depende do que você come e de quanto você malha, né? Não é consumindo, se entupindo de proteína que você vai ganhar músculo", afirma Sophie Deram. O organismo humano só aproveita uma parte do que é consumido por refeição — aproximadamente 25 a 30 gramas. O excedente dessa capacidade pode acabar sendo armazenado pelo corpo na forma de gordura. É por esse motivo que algumas pessoas que ingerem grandes quantidades de proteína para emagrecer podem, na verdade, engordar.
Riscos renais e diagnóstico tardio
O perigo aumenta consideravelmente para quem já apresenta predisposição a doenças renais. Para pessoas com função renal comprometida, dietas hiperproteicas podem acelerar a perda de funcionamento dos rins. O grande problema é que a maioria dos indivíduos desconhece essa condição, já que os sintomas geralmente aparecem apenas quando a doença está em estágio avançado. Dois exames simples — creatinina e urina — poderiam detectar alterações precocemente, permitindo intervenções médicas adequadas.
A reportagem apresentou o caso do ex-atleta Tiago Guzoni, de 30 anos, que decidiu aumentar drasticamente a ingestão de proteína para ganhar massa muscular. "A minha dieta às vezes se baseava muito por proteína. Quando eu não conseguia bater os macros do dia, os macronutrientes, então eu aumentava essa proteína com hipercalórico, jogando um shake, ou comendo bastante mesmo de proteína: filé de frango, carne, peixe e outras coisas", relata Tiago. Ele evitava anabolizantes e apostava na alimentação e suplementos para alcançar seus objetivos.
Após dois anos seguindo essa rotina, começou a sentir fortes dores de cabeça durante os treinos. "E foi esse endócrino que falou que o meu rim já estava com problema e já estava com 50% de funcionamento", revelou o ex-atleta. Tiago passou oito meses fazendo hemodiálise e, em 2024, precisou de um transplante de rim. Somente depois disso descobriu que o problema havia sido identificado tardiamente. Atualmente, com acompanhamento nutricional especializado, ele mantém uma dieta equilibrada e controla rigorosamente a ingestão de proteínas e carboidratos — uma transformação de hábitos que, segundo ele, trouxe maior consciência sobre o próprio corpo e sobre os excessos do passado.
Alimentos naturais versus industrializados
A investigação também visitou um laboratório da USP para demonstrar como funciona a produção do whey protein. O pó, fabricado a partir do soro do leite, passa por um processo rápido de secagem que preserva seu valor nutricional. Apesar disso, raramente é consumido puro: a indústria costuma adicionar adoçantes, aromatizantes e espessantes. Mesmo assim, especialistas afirmam que o suplemento não é classificado como ultraprocessado.
Para compreender o que oferece melhor custo-benefício — comida natural ou produtos industrializados com proteína extra — nutricionistas compararam barrinhas, whey e cookies com alimentos comuns, como ovos, frango e feijão. Do ponto de vista proteico, muitos produtos se equivalem aos alimentos naturais. "Uma barrinha de proteínas tem em torno de 12 a 15 gramas de proteína. Um ovo tem 6,5 gramas de proteínas. Então a gente tem dois ovos com 13 gramas de proteínas", explica Filipe Bragança, conselheiro da BrasNutri.
Contudo, nutricionalmente, os alimentos in natura oferecem vitaminas, minerais e fibras essenciais, enquanto os industrializados tendem a conter mais gordura saturada e menos nutrientes. "A barrinha de proteína, ela vem com gordura saturada. Muitas delas têm bastante gordura saturada, então não é interessante a gente consumir frequentemente", alerta Filipe. Apesar da explosão de produtos proteicos no mercado, os especialistas insistem em um ponto fundamental: comida de verdade costuma ser suficiente para suprir as necessidades diárias de proteína da maioria das pessoas.
"Se a gente comer comida mesmo, né, um prato que tem arroz, feijão, carne, salada, a gente vai conseguir atingir a necessidade de proteína e não precisa de suplemento", conclui Lara Natacci. A reportagem reforça a importância do equilíbrio nutricional e do acompanhamento profissional, destacando que moderação e conhecimento são chaves para uma alimentação saudável e sustentável.



