Clínica Psicanalítica: do que se trata e como transforma o sujeito
Clínica Psicanalítica: do que se trata e como transforma

Todo profissional que se dedica à clínica, seja ela qual for, precisa compreender a extensão de seu campo de atuação. A noção de método está diretamente ligada a isso: um método impõe os limites de nossa racionalidade, definindo o que pode ser perguntado, o que constitui um objeto de pesquisa ou intervenção e, sobretudo, o que não compete a esse modo de ação. Trata-se, portanto, de uma delimitação de fronteiras entre saberes e fazeres, pensada pela lógica da disciplinarização das ciências e das práticas de promoção do cuidado. Ignorar esse princípio pode levar – e na maioria das vezes efetivamente leva – a sérios erros éticos.

A duplicidade do título

O título deste texto possui uma duplicidade que não é mera coincidência: saber do que se trata na clínica psicanalítica pode nos orientar tanto nos processos de formação quanto na decisão de buscar ou não a abordagem psicanalítica como meio clínico. De forma resumida e objetiva, podemos afirmar que uma análise trata da relação do sujeito com o campo da linguagem.

O sujeito na linguagem

Lacan afirmava que somos “sujeitos presos e torturados no campo da linguagem”. O tom dramático dessa frase nos alerta para dois elementos fundamentais da escuta analítica: primeiro, não há escapatória para o campo discursivo; segundo, sofremos de modos muito particulares pelos efeitos das palavras. Dizer que não há fuga possível do campo da linguagem implica reconhecer que sofremos além de nossa capacidade consciente de compreensão de um determinado efeito.

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Quando vivemos diferentes situações, associamos os fatos a elementos de nossa história, atualizamos o que aparentemente havia sido esquecido e compomos uma trama cheia de nuances e diversas camadas discursivas. Escutá-las demanda uma certa arte, um método. Vamos para a clínica psicanalítica para nos ouvirmos de uma forma que, muitas vezes, não é possível por outros meios. Nossa tendência é o recuo, a fuga, a evitação.

O papel do analista

Aqui o analista se faz necessário como aquele que deseja saber, que está disposto a suspender julgamentos e juízos de valor antecipados, para, em seu ato, tornar possível que algo do inconsciente venha a ser dito e, consequentemente, elaborado. Logo, toda análise é, antes de tudo, um processo transformativo. Nisso reside um aspecto de grande particularidade: sofremos de modos muito singulares.

Quando a psicanálise se propõe a sair do âmbito da observação para o da escuta, é justamente nisso que implica seu ato: as amarrações de um sujeito com aquilo que o afeta falam de um modo totalmente próprio de ser e estar em um mundo discursivo.

Transformações promovidas pela análise

Se entendemos que a clínica psicanalítica promove transformações na relação entre o sujeito e a linguagem, compreendemos que o processo analítico coloca em questão sua relação com os outros, com o modo de viver suas experiências de corporeidade, sua relação com o desejo, com seus anseios, com seu passado e seu futuro. Sofremos do peso das palavras, dos efeitos da memória, da nossa incapacidade de dizer “tudo sobre tudo” ou o essencial sobre alguma coisa.

Mas também é com palavras que nos reinventamos, que nos alçamos aos sonhos mais belos da humanidade, que reescrevemos o mundo com arte e que nos enlaçamos com os outros na multiplicidade de afetos que compõem o humano. Nem sempre se trata disso, e por isso a clínica psicanalítica talvez não seja a melhor escolha em diversos casos.

Testemunhos de transformação

Entretanto, somos testemunhas de um sem-número de reviravoltas em processos muito particulares nos quais sujeitos, ao se implicarem nesse modo de escuta de si mesmos, passam por reinvenções muito significativas de si e do mundo, de forma a serem éticos em relação a seus desejos e afetos.

Enfim, do que se trata numa clínica psicanalítica? A resposta mais simples e mais extensa que consigo pensar é aquela que nos foi legada por Lacan: de uma ética das paixões.

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