O placar enganoso entre medicamentos e cirurgia
Um estudo recente publicado em um periódico da Associação Médica Americana analisou quase 12 milhões de pessoas com sobrepeso, obesidade ou diabetes nos Estados Unidos entre 2022 e 2024. Os resultados são impressionantes: o uso de análogos de GLP-1, a classe das canetas emagrecedoras como Ozempic e Mounjaro, cresceu 140% no período. Enquanto isso, a cirurgia bariátrica registrou uma queda de 34%. À primeira vista, parece uma goleada dos remédios sobre o bisturi. No entanto, o verdadeiro adversário é a obesidade, e não há um único tratamento vencedor.
O desafio global do tratamento da obesidade
Apesar do avanço dos medicamentos, estima-se que menos de 10% dos pacientes elegíveis para tratamento da obesidade recebem alguma intervenção adequada. Existe uma narrativa sedutora, mas perigosa, de que as canetas emagrecedoras tornaram a cirurgia bariátrica obsoleta. Essa visão é parcialmente verdadeira e, por isso, inteiramente perigosa. A obesidade não é um diagnóstico único, mas uma trajetória que exige estratégias diversificadas e adaptadas a cada paciente.
O papel da cirurgia bariátrica
A cirurgia bariátrica nunca deveria ser vista como a última opção, reservada para casos desesperadores. Esse modelo é cruel e ineficaz. Por outro lado, os novos medicamentos não são balas de prata: funcionam enquanto são usados, têm efeitos colaterais, custam caro e, para pacientes com obesidade grave e múltiplas comorbidades, podem não oferecer os mesmos benefícios que a cirurgia. O estudo do JAMA Surgery mostra que os pacientes submetidos à cirurgia eram mais doentes e tinham mais comorbidades, indicando que a intervenção foi necessária para os casos mais complexos.
A individualização como chave do sucesso
Hoje, os medicamentos podem ser usados antes da cirurgia para facilitar a perda de peso, ou após o procedimento para evitar o reganho de peso. Também podem ser a única intervenção necessária para alguns pacientes. O que realmente importa é a individualização: não existe o tratamento certo, mas sim o tratamento certo para cada paciente, no momento certo de sua vida. Um jovem com IMC de 38 e sem comorbidades pode começar com medicamentos. Já uma mulher com IMC de 45, diabetes descontrolado e apneia do sono pode encontrar na cirurgia a única chance de mudança sustentada.
Uma abordagem responsável
O médico que encara a obesidade como um problema com uma única resposta já errou antes de começar. O que existe é uma constelação de decisões, revisadas ao longo do tempo, desenhadas para cada ser humano que carrega décadas de tentativas, fracassos e esperanças. Não há tratamentos vencedores. Quem vence, quando bem assistido, é o paciente. E todos jogamos juntos para que essa vitória seja tão expressiva quanto um 7 a 1.



