Artista que viveu manicômio encontra na arte cura e pertencimento no Rio
Artista supera manicômio com arte e pertencimento

O artista plástico Edson Antunes, de 63 anos, vivenciou diferentes fases da saúde mental no Brasil. Ele experimentou o modelo manicomial e testemunhou a reforma psiquiátrica que prioriza o cuidado em liberdade. Internado ainda na infância por sofrimento psíquico, Edson descobriu na arte uma maneira de reconstruir sua história. Atualmente, mantém um ateliê no Instituto Municipal Nise da Silveira, no bairro Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio de Janeiro, e já apresentou suas obras tanto no Brasil quanto no exterior.

Nesta segunda-feira, 18 de maio, é celebrado o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Para marcar a data, o Instituto Nise da Silveira promove um festival ao longo da semana, discutindo a relevância do cuidado em liberdade na saúde mental. A data remete ao Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, realizado em 1987 em Bauru (SP).

Arte como ferramenta de recomeço

Casado e pai de dois filhos, Edson afirma que encontrou no instituto um espaço de acolhimento e pertencimento. “Tudo que me fazia mal, eu passei para a tela”, destacou. “Quando você enxerga aquilo que te incomoda, encontra um jeito de batalhar contra isso. A arteterapia não cura, mas dá direção. Ela ensina a sobreviver ao que surge dentro da gente”, acrescentou.

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Suas obras já foram exibidas no Paço Imperial, no Centro do Rio, e na Escola de Belas Artes de Verona, na Itália, além de mostras em outras instituições culturais brasileiras. “Minhas verdadeiras obras de arte hoje estão em casa: minha esposa e meus filhos. Eles me ensinam todo dia o que é amor. Mas hoje, aqui no Nise da Silveira, encontrei uma família, onde sou tratado como ser humano”, afirmou.

O contato de Edson com a pintura começou após incentivo de profissionais do Caps Raul Seixas, onde passou a expressar emoções no papel. A arte integrou seu tratamento e se tornou também ferramenta de trabalho e convivência. Hoje, ele mantém um ateliê no Espaço Travessia, ligado ao Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde do Instituto Nise da Silveira. O projeto promove exposições de artistas periféricos e oferece oficinas abertas ao público.

Além do trabalho no ateliê, Edson participa das atividades terapêuticas do Museu de Imagens do Inconsciente, produzindo telas e peças em cerâmica. Segundo a instituição, as iniciativas fazem parte de uma proposta de cuidado humanizado em saúde mental, baseada em arte, cultura e inclusão social. Inspirado pela própria trajetória, o artista também desenvolve atividades em escolas, projetos sociais e instituições culturais, usando o desenho como forma de escuta e expressão emocional.

Do sofrimento ao pertencimento

Erika Pontes, diretora do Instituto Municipal Nise da Silveira, lembra que a unidade já foi “um local de muito sofrimento”. “Várias pessoas foram internadas aqui ainda na infância. Os efeitos disso são inúmeros.” “Revisitar essa história é fundamental para que possamos refletir sobre outras possibilidades de cuidado, baseadas no respeito, na dignidade, na cidadania e no cuidado em liberdade. Um cuidado que reconheça a individualidade, a história e a humanidade de cada sujeito”, afirmou.

O Nise também abriga o Memorial da Loucura, espaço aberto ao público que reúne documentos, livros, prontuários, móveis e obras artísticas relacionados à história da psiquiatria no Brasil. O acervo apresenta desde o período marcado pelos manicômios até o processo de reforma psiquiátrica e desinstitucionalização dos pacientes. O espaço funciona nas instalações originais do antigo manicômio e traz objetos, relatos e experiências imersivas sobre a transformação do modelo de atendimento em saúde mental.

O memorial também abriga o bloco Loucura Suburbana, oficinas culturais e iniciativas de geração de renda, como o Bistrô QuiDeliche e uma loja com produtos produzidos por usuários da rede de saúde mental. A visitação é aberta ao público de terça a sábado, das 9h às 16h, e às segundas-feiras, das 13h às 16h.

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Festival marca o Dia da Luta Antimanicomial

Para marcar o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio, o Instituto Municipal Nise da Silveira realiza entre terça-feira (19) e segunda-feira da semana seguinte (25) a 4ª edição do Festival Nós na Luta. A programação inclui oficinas, rodas de conversa, apresentações culturais e debates sobre a história da saúde mental no Brasil e os 25 anos da Lei 10.216/2001, considerada um marco da reforma psiquiátrica brasileira. A entrada é gratuita, e o evento ocorre na Rua Ramiro Magalhães, 521.

Programação

  • Terça, 19: 9h30 – Aula Magna com Paulo Amarante no Auditório Cetape; 14h – Visita Guiada no Centro de Estudos.
  • Quarta, 20: 9h – Contação de histórias no Memorial da Loucura; 9h30 – Planetário móvel e lançamento de foguetes no Ginásio do Polo Esportivo; 10h – Biodanza no Bosque Dona Ivone Lara; 13h – “Ambulatório em: Retratos - Contando Nossas Histórias” no Espaço Travessia; 14h – Teatro “Os Inumeráveis: O amor maior ou poderia dizer a história Do Mar Sem Ondas” no Espaço Travessia; 14h20 – Ballet Osun no Espaço Travessia; 15h – Roda de conversa com os artistas no Espaço Travessia.
  • Quinta, 21: 9h às 18h – “Um dia de Poesia: 10 anos de Travessia”. Programação com shows, oficinas, teatro, música, cordel, lançamento de livros, sarau e outras atividades em comemoração aos 10 anos do Espaço Travessia.
  • Sexta, 22: 9h – Mesa de debate “Lei 10.216/2001: 25 anos de uma lei viva” no Auditório Cetape; 14h – Encontro de Rodas de Samba da Saúde Mental no Memorial da Loucura.
  • Segunda, 25: 9h às 17h – Abertura do VI Campeonato de Futebol da RAPS Carioca na Vila Olímpica do Encantado (Rua Bento Gonçalves, 457a).