Caneta Ozempic reduz consumo de álcool em estudo clínico promissor
Ozempic reduz consumo de álcool em estudo clínico

Um estudo clínico recente, publicado na renomada revista médica The Lancet, revelou que a semaglutida, princípio ativo dos medicamentos Ozempic e Wegovy, pode reduzir significativamente o consumo de álcool em pessoas com obesidade e transtorno por uso de álcool. A pesquisa, que testou a droga em um ensaio controlado, demonstrou uma queda expressiva na ingestão de bebidas alcoólicas, abrindo caminho para novas possibilidades terapêuticas.

Detalhes do estudo

O estudo incluiu 108 participantes, divididos igualmente entre grupo que recebeu semaglutida na dosagem de 2,4 mg por semana (equivalente à do Wegovy) e grupo placebo. Todos os voluntários apresentavam índice de massa corporal igual ou superior a 30 kg/m², transtorno por uso de álcool de moderado a grave e estavam em busca de ajuda para reduzir ou interromper o consumo. A média de idade era de 52 anos, e 85% dos participantes preenchiam critérios para a forma grave do transtorno.

Os participantes mantinham um padrão elevado de consumo, com homens ingerindo pelo menos 60 gramas de álcool por dia e mulheres, 48 gramas. Isso equivale a aproximadamente 157 doses de bebida por mês, quantidade suficiente para causar danos significativos à saúde.

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Resultados promissores

Após seis meses de tratamento, que incluiu também até dez sessões de psicoterapia, o grupo da semaglutida obteve uma redução de mais de 40 pontos percentuais nos dias de consumo elevado, contra 26 pontos no grupo placebo. A ingestão de álcool caiu, em média, 1,5 grama por mês no grupo tratado, o que representa cerca de 33 latinhas de cerveja ou doses de destilado a menos por mês. Além disso, exames de sangue confirmaram a diminuição do impacto do álcool no organismo.

Como esperado, a semaglutida também promoveu perda de peso significativa: o grupo tratado perdeu em média 11,2 kg, enquanto o grupo placebo perdeu apenas 2,2 kg.

Mecanismo de ação

O endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto, explica que os agonistas de GLP-1, como a semaglutida, atuam no apetite e no metabolismo, mas também interferem em vias cerebrais associadas à recompensa e à compulsão. Isso explica por que a droga pode ajudar no controle da dependência alcoólica, embora o mecanismo exato ainda não esteja completamente esclarecido.

Cautela e próximos passos

Apesar dos resultados animadores, os autores do estudo pedem cautela. A pesquisa foi pequena, realizada em um único centro na Dinamarca e incluiu apenas pessoas com obesidade, o que impede a extrapolação imediata dos achados para todos os pacientes com transtorno por uso de álcool, especialmente aqueles sem excesso de peso. Além disso, não houve acompanhamento após as 26 semanas, o que não permite avaliar se os efeitos se mantêm a longo prazo.

“A mensagem, por ora, não é que a semaglutida virou tratamento aprovado para transtorno por uso de álcool. É que, pela primeira vez, um ensaio desenhado para responder a essa pergunta mostrou que a droga reduziu o consumo elevado em pessoas com obesidade que buscavam tratamento”, analisa Couri.

Os bons resultados, no entanto, tornam mais tangível a perspectiva de uma nova opção terapêutica para milhões de pessoas que enfrentam problemas com o álcool no cotidiano.

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