Um menino de 5 anos, conectado a fios e tubos, conseguiu se levantar ao lado da cadeira de rodas para jogar uma bolinha para a cadela Hadley no pátio do Hospital Infantil de Cincinnati, nos Estados Unidos. Após mais de um mês sem sair de casa, ele sorriu quando a labradora correu para buscar o brinquedo, recebendo aplausos dos cuidadores. Cenas como essa tornaram-se mais comuns em hospitais pediátricos americanos que passaram a integrar cães de apoio em tempo integral à rotina de atendimento.
Diferença entre cães de terapia e de assistência
Diferentemente dos cães de terapia, levados por voluntários para visitas ocasionais, os cães de assistência são treinados para atuar diariamente ao lado de equipes médicas. Eles ajudam crianças a enfrentar procedimentos invasivos, longos períodos de internação e tratamentos desgastantes. Especialistas afirmam que o número desses programas cresce nos últimos anos, impulsionado por pesquisas que indicam benefícios físicos e emocionais para os pacientes.
Benefícios comprovados pela ciência
Kerri Rodriguez, diretora do Laboratório de Vínculo Humano-Animal da Universidade do Arizona, explica que mesmo interações breves com cães de assistência podem reduzir sinais de estresse, como pressão arterial e níveis de cortisol, além de melhorar o bem-estar geral das crianças. “Eles proporcionam um pouco de normalidade e conforto em um ambiente muito estressante”, afirma a pesquisadora.
Estudos recentes reforçam os efeitos positivos
Uma pesquisa de 2022 analisou relatos de profissionais de saúde de 17 hospitais pediátricos e concluiu que os cães ajudam a criar vínculos, trazer conforto e tornar o ambiente hospitalar menos hostil para pacientes e famílias. Outro estudo, publicado em 2021 no Journal of Pediatric Nursing, indicou melhora no controle da dor e da pressão arterial em crianças e adolescentes submetidos a terapias com animais. Os cães também incentivam a movimentação durante a recuperação, como no caso de Bethany Striggles, de 11 anos, que terminou quimioterapia para câncer ósseo e passou a brincar regularmente com Hadley pelos corredores. “Ela me ajuda a me exercitar mais”, conta a menina.
Expansão dos programas
Não há um levantamento oficial sobre quantos cães atuam hoje em hospitais infantis dos EUA, mas a participação em um encontro anual voltado a cães de apoio hospitalar quase dobrou entre 2024 e 2025, segundo Rodriguez. Hospitais como o Mount Sinai Kravis Children's Hospital (Nova York), o Norton Children's Hospital (Kentucky) e o St. Louis Children's Hospital já utilizam cães de assistência há anos. Outros continuam sendo criados: em março, o Johns Hopkins Children's Center apresentou seus dois primeiros cães de apoio. Os animais geralmente são fornecidos por organizações sem fins lucrativos especializadas em treinamento, e os hospitais assumem despesas como alimentação, veterinário e manutenção.
Protocolos rigorosos de higiene
Por circularem em áreas sensíveis, os cães seguem protocolos rígidos de higiene. Hadley, por exemplo, atua na ala de oncologia e doenças hematológicas do Hospital Infantil de Cincinnati, onde muitos pacientes têm imunidade comprometida. Ela toma banho duas vezes por mês e passa por limpezas extras sempre que necessário. Pacientes e profissionais higienizam as mãos antes e depois do contato com os animais. Em casos de isolamento hospitalar, os cães normalmente não entram nos quartos, exceto quando pacientes em estado terminal pedem a presença do animal como conforto emocional.
Mais do que companhia
Além do apoio às crianças internadas, os cães ajudam familiares a enfrentar a hospitalização. A adolescente Aspen Franklin, de 14 anos, que trata uma doença autoimune grave, criou forte vínculo com Hadley durante internações frequentes. Segundo sua mãe, a presença da cadela ajuda inclusive os irmãos da paciente, que ficam afastados de seus próprios animais de estimação. No fim do expediente, Hadley retorna ao espaço reservado para descanso dentro do hospital. Acima de sua cama, há um mural com desenhos, cartas e mensagens deixadas pelas crianças. Uma delas resume o papel desses cães: “Obrigada por ser minha melhor amiga”.



