Uma ceia de Natal que deveria ser de celebração se transformou em luto para a família Cardoso de Brito, em João Pinheiro, noroeste de Minas Gerais. Manuel Cardoso de Brito, de 68 anos, faleceu às vésperas das festas de fim de ano, após complicações decorrentes de duas cirurgias realizadas no Hospital Municipal Antônio Carneiro Valadares. A família acusa a unidade de saúde de ter deixado uma pinça cirúrgica dentro do corpo do paciente durante o primeiro procedimento.
Uma perda dolorosa e a suspeita de negligência
Samuel Cardoso Rezende de Brito, filho do idoso, viveu o que classifica como o pior Natal de sua vida. Serralheiro de profissão, ele mesmo confeccionou a cruz que hoje marca o túmulo do pai. "Foi a cruz mais pesada que eu fiz na minha vida. Nossa, eu chorei, mas chorei", desabafou. A dor foi agravada pela suspeita de que a morte poderia ter sido evitada.
De acordo com o relato da família, Manuel foi internado no dia 5 de dezembro de 2025 com uma úlcera gástrica e passou por uma cirurgia de urgência. Após o procedimento, ele foi para a UTI e depois para um quarto. No entanto, o filho e uma cuidadora notaram que o idoso apresentava dificuldade para se alimentar, sinais de dor e sonolência excessiva.
Uma tomografia solicitada no dia 11 de dezembro teria revelado a presença de um corpo estranho na cavidade abdominal. Imediatamente, segundo a família, profissionais do hospital levaram Manuel, de forma apressada e sem explicar os motivos detalhadamente, para uma segunda cirurgia. Foi durante essa segunda intervenção que uma pinça cirúrgica foi retirada de seu corpo.
Histórico de problemas e a busca por respostas
O caso ganhou contornos ainda mais graves quando Samuel revelou que sua família já teria passado por situação semelhante no mesmo hospital. Segundo ele, sua mãe, há muitos anos, teve um dreno esquecido dentro do corpo após uma cirurgia de retirada da vesícula. O objeto teria ficado por quase dois meses até ser removido, após insistência da família.
Após a segunda cirurgia, o estado de Manuel piorou. Ele ficou 13 dias internado, não resistiu e veio a óbito. A certidão de morte apontou como causa choque séptico e úlcera gástrica perfurada, classificando-a como natural. A família, no entanto, contesta essa versão, sustentada pelo advogado Iuri Evangelista Furtado.
"A família não busca vingança, mas sim verdade, justiça e respeito à memória do senhor Manuel, bem como a proteção de outras vidas para que fatos semelhantes jamais se repitam", declarou o advogado. Ele já requisitou todos os prontuários, laudos e registros do hospital e acompanha as apurações da Polícia Civil.
Posicionamento da Prefeitura de João Pinheiro
Em nota pública, a Secretaria Municipal de Saúde confirmou os fatos principais. A administração municipal informou que o paciente deu entrada no hospital em estado clínico extremamente debilitado, com quadro infeccioso instalado, idade avançada e histórico de cardiopatia, diabetes, arritmia e sequelas de AVC.
A nota reconhece que foi identificado um corpo estranho na cavidade abdominal e que a acompanhante foi comunicada da necessidade de uma nova cirurgia, realizada sem intercorrências. A prefeitura afirmou que a direção do hospital adotou providências como a notificação de evento adverso, o reforço dos protocolos de segurança do paciente e a comunicação à ANVISA para a instauração de uma sindicância.
O município se solidarizou com a família e se colocou à disposição para prestar assistência e esclarecimentos adicionais. A reportagem questionou a Secretaria de Saúde sobre o episódio envolvendo a mãe de Samuel, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.
Enquanto as investigações oficiais seguem seu curso, Samuel e sua família tentam reconstruir suas vidas sem a presença do pai. "Se isso não tivesse acontecido com ele, eu garanto que meu pai tinha passado o Natal e mais um Ano Novo com a gente", lamentou o filho, cuja dor agora se mistura com a luta por justiça e transparência.