Vacina de alta dose disponível no Brasil pode reduzir risco de Alzheimer em 20%, aponta estudo
Uma pesquisa científica apresentou evidências promissoras de que a vacina contra gripe de alta dose, comercializada no Brasil como Efluelda, pode estar associada a uma redução significativa no risco de desenvolvimento de demência do tipo Alzheimer em pessoas idosas. O estudo, publicado na revista científica Neurology, analisou dados de mais de 160 mil indivíduos com 65 anos ou mais, revelando descobertas que ampliam o entendimento sobre os benefícios potenciais das vacinas.
Metodologia e resultados da pesquisa
Os pesquisadores americanos compararam dois grupos distintos: idosos que receberam a vacina de alta dose contra influenza, formulada com aproximadamente quatro vezes mais antígeno que as versões tradicionais, e aqueles que tomaram a vacina padrão. A formulação de alta dose, conhecida internacionalmente como Fluzone High-Dose e aprovada pela agência reguladora americana (FDA) em 2009, está disponível no Brasil desde 2023 na rede privada, sendo indicada para pessoas a partir dos 60 anos.
Os resultados demonstraram que os indivíduos que receberam a dose mais elevada apresentaram um risco cerca de 20% menor de desenvolver Alzheimer nos primeiros dois anos após a vacinação, em comparação com quem recebeu a versão padrão. Segundo o coautor Paul Schulz, da Escola de Medicina McGovern da UTHealth, os pesquisadores estimam que seria necessário vacinar aproximadamente 185 pessoas com a versão de alta dose para prevenir um caso de Alzheimer ao longo de aproximadamente dois anos.
Possíveis mecanismos de proteção
Embora a explicação definitiva ainda não esteja estabelecida, os cientistas apresentam hipóteses plausíveis para essa associação. Uma delas sugere que vacinas mais potentes reduzem de forma mais eficaz o risco de infecção por influenza, evitando assim processos inflamatórios sistêmicos que podem afetar negativamente o cérebro e contribuir para doenças neurodegenerativas.
Outra hipótese envolve o próprio sistema imunológico, com a vacina potencialmente "treinando" a resposta imune e modulando inflamações crônicas associadas ao envelhecimento, fenômeno conhecido como inflammaging, o que poderia reduzir danos ao tecido cerebral. Um dado interessante revelado pelo estudo é que o efeito protetor parece ter sido mais pronunciado entre mulheres, aparecendo mais cedo e mantendo-se por mais tempo, possivelmente devido a diferenças biológicas na resposta imunológica.
Contexto científico e limitações
Esta pesquisa se soma a um conjunto crescente de evidências que sugerem efeitos inesperados das vacinas, possivelmente ligados à redução de inflamações após infecções. Em 2022, os mesmos autores demonstraram que a vacinação contra gripe esteve associada a uma redução de até 40% no risco de Alzheimer ao longo de quatro anos de acompanhamento.
Posteriormente, em 2023, um segundo estudo indicou que diferentes vacinas — incluindo as contra tétano, difteria, herpes-zóster e pneumococo — também estavam associadas a um menor risco subsequente de demência, sugerindo que a redução do risco de Alzheimer pode ser uma propriedade geral das vacinas, e não algo específico da vacina contra gripe.
Entre os imunizantes, a vacina contra herpes-zóster é a que reúne as evidências mais robustas até agora para a redução do risco de demência. Em 2025, pesquisadores da Universidade de Stanford mostraram que essa vacina esteve associada a uma redução de cerca de 20% no risco de desenvolvimento de demência, com resultados que se mantiveram consistentes em múltiplas análises.
Considerações importantes
Os próprios pesquisadores ressaltam que se trata de um estudo observacional, capaz de identificar associações estatísticas, mas não de estabelecer uma relação definitiva de causa e efeito. Na prática, isso significa que não é possível afirmar com certeza absoluta que a vacina de alta dose previne Alzheimer, apenas que há uma relação estatística entre os dois fatores que merece investigação mais aprofundada.
Apesar das ressalvas metodológicas, a pesquisa reforça uma linha científica que vem ganhando força: a de que vacinas podem ter efeitos além do esperado na prevenção de doenças. Os autores também destacam que a gripe continua sendo uma doença frequentemente subestimada, o que contribui para baixos índices de vacinação na população.
O infectologista Paulo Gewehr, coordenador do Núcleo de Vacinas do Hospital Moinhos de Vento, comentou sobre a robustez metodológica dos estudos mais recentes, aumentando a confiança de que as vacinas realmente podem ajudar a prevenir ou atrasar a demência, e não que outros fatores tenham influenciado os resultados.



