Vacina contra herpes-zóster é associada a menor risco de demência em estudo canadense
A vacina atenuada contra o herpes-zóster pode estar relacionada a uma redução significativa no risco de desenvolvimento de demência entre a população idosa. Essa é a principal conclusão de uma pesquisa abrangente publicada na renomada revista científica The Lancet, que analisou dados de mais de 230 mil pessoas ao longo de aproximadamente cinco anos e meio.
Metodologia inovadora: o "experimento natural" canadense
Os pesquisadores adotaram uma abordagem metodológica singular para chegar a esses resultados. Em vez de comparar simplesmente indivíduos vacinados com não vacinados, eles exploraram o que denominaram um "experimento natural". Essa oportunidade surgiu quando a província de Ontário, no Canadá, implementou em 2016 um programa público que oferecia gratuitamente a vacina Zostavax (desenvolvida pela MSD) exclusivamente para cidadãos que completassem 71 anos a partir de uma data específica.
Essa política criou, na prática, dois grupos demograficamente muito semelhantes: pessoas com diferença de apenas semanas ou poucos meses de idade, mas com acesso distinto à vacinação. "São indivíduos que residem na mesma região há muito tempo, com características demográficas e de acompanhamento médico extremamente parecidas", explica o neurologista Wyllians Borelli, coordenador do Centro de Memória do Hospital Moinhos de Vento, que analisou o estudo.
Borelli destaca que fatores que poderiam enviesar a análise, como diabetes, colesterol alto ou hipertensão, estavam presentes em ambos os grupos. "A grande diferença reside justamente em quem recebeu ou não a imunização, o que confere maior consistência aos achados", complementa o especialista, que não participou diretamente da pesquisa.
Resultados estatisticamente relevantes
O acompanhamento dos mais de 230 mil participantes revelou que os idosos que tiveram acesso à vacina apresentaram um risco aproximadamente 2 pontos percentuais menor de receber um diagnóstico de demência durante o período estudado. Em termos práticos, isso significa que, a cada 100 pessoas vacinadas, duas deixaram de desenvolver a condição neurodegenerativa.
Embora essa porcentagem possa parecer modesta em escala individual, ela adquire grande relevância quando projetada para populações inteiras, envolvendo milhares ou milhões de idosos. Para validar a robustez dos resultados, os cientistas repetiram as análises utilizando diferentes recortes temporais e compararam os dados de Ontário com os de outras províncias canadenses que não possuíam programas públicos similares de vacinação contra o herpes-zóster. O padrão de associação positiva manteve-se consistente em todas as verificações.
Hipóteses sobre o mecanismo de proteção cerebral
A explicação biológica para essa possível proteção ainda não é definitiva, mas os pesquisadores apresentam hipóteses plausíveis. O vírus varicela-zóster, responsável tanto pela catapora quanto pelo herpes-zóster, possui afinidade pelo sistema nervoso e pode permanecer latente no organismo por décadas.
Com o avanço da idade, as reativações virais tornam-se mais frequentes e podem desencadear processos inflamatórios. Estudos experimentais anteriores sugerem que infecções virais desse tipo podem estimular o acúmulo de proteínas associadas à demência, como a beta-amiloide, além de contribuir para inflamações crônicas no cérebro.
"A principal hipótese é que a vacina ajude a evitar um dano silencioso e prolongado", avalia Borelli. "Esse vírus pode causar problemas subclínicos, sem sintomas aparentes, lesionando neurônios e aumentando a neuroinflamação ao longo do tempo. Nós não percebemos isso no cotidiano, mas esse processo pode elevar o risco de demência anos depois. É aí que a vacinação parece intervir, reduzindo esse efeito cumulativo".
A vacina, ao reduzir a reativação viral ou modular a resposta do sistema imunológico, poderia atuar como um fator protetor para a saúde cerebral em longo prazo.
Limitações do estudo e perspectivas futuras
Os próprios autores da pesquisa fazem importantes ressalvas sobre as conclusões. O estudo não permite afirmar categoricamente que a vacina previne a demência, mas sim que existe uma associação consistente entre a vacinação e um menor risco de diagnóstico. Além disso, os dados basearam-se em registros médicos, o que pode deixar de captar casos mais leves ou ainda não diagnosticados formalmente.
Outro ponto crucial é que a vacina analisada foi a versão mais antiga, produzida com vírus vivo atenuado (Zostavax), hoje menos utilizada em muitos países. No Brasil, por exemplo, a vacina disponível contra o herpes-zóster na rede privada é a Shingrix, de tecnologia recombinante, que substituiu a Zostavax. Ainda não se sabe se essa versão mais moderna teria o mesmo efeito observado no estudo canadense.
Por essas razões, os pesquisadores mantêm a cautela e afirmam que ainda não é possível indicar a vacina contra o herpes-zóster como uma estratégia comprovada de prevenção da demência. Entretanto, os resultados são considerados promissores e apontam para um caminho de investigação relevante.
Relevância para a saúde pública brasileira
Do ponto de vista da saúde pública, o achado desperta particular interesse. "Estamos diante de uma pesquisa bem conduzida, com um desenho metodológico interessante e custo-efetivo, capaz de gerar impacto populacional significativo", opina Borelli. "Isso é algo que poderia ser reproduzido aqui no Brasil, onde já dispomos de dados sobre vacinação contra o herpes-zóster, embora a cobertura seja majoritariamente na rede privada".
Para confirmar definitivamente essa associação, seriam necessários outros estudos de grande porte, realizados em diferentes populações e contextos. A pesquisa publicada na The Lancet, no entanto, já representa um avanço importante na compreensão das interações entre infecções virais, imunização e saúde neurológica no envelhecimento.
Entendendo o herpes-zóster
Conhecida popularmente como cobreiro, a herpes-zóster é uma doença causada pela reativação do vírus varicela-zóster. Na infância, a maioria das pessoas tem contato com esse patógeno, desenvolvendo a catapora. Após a resolução dessa infecção inicial, o vírus permanece no organismo, alojando-se no sistema nervoso, especificamente nos gânglios dorsais da medula espinhal.
Ali, ele fica em estado de latência, controlado pelo sistema imunológico. Quando ocorre uma queda significativa na imunidade – seja pelo envelhecimento, por doenças ou por estresse – o vírus encontra condições para se replicar novamente. As cópias virais migram dos gânglios dorsais para os nervos sensoriais que se conectam à pele, desencadeando uma inflamação localizada.
O processo resulta no aparecimento de lesões cutâneas em regiões específicas do corpo, como costas, rosto ou pernas, acompanhadas de dor intensa. Sem tratamento adequado, a dor pode se tornar crônica (neuralgia pós-herpética) e o quadro pode recorrer, podendo inclusive levar a complicações como comprometimento visual e problemas cardiovasculares.