Porcos são a espécie mais viável para transplantes em humanos, revela pesquisa brasileira
Porcos são a espécie mais viável para transplantes em humanos

Porcos se tornam a esperança para transplantes em humanos no Brasil

O xenotransplante — técnica que envolve a transferência de órgãos e tecidos entre espécies diferentes — alcançou um marco significativo no Brasil com o nascimento de Boreal, o primeiro porco clonado no país. O suíno veio ao mundo no Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ/APTA), localizado em Piracicaba, no interior de São Paulo.

Por que os porcos são a escolha ideal?

Apesar de não serem os animais mais próximos evolutivamente dos seres humanos — os primatas ocupam essa posição —, os porcos são atualmente considerados a espécie mais promissora para xenotransplantes. Essa preferência foi evidenciada em procedimentos recentes, como o transplante de coração realizado em 2023 em um veterano da marinha dos Estados Unidos na Universidade de Medicina de Maryland, e o transplante de rim em Boston em 2024.

Segundo Luciano Brito, biólogo geneticista da Universidade de São Paulo (USP) e um dos responsáveis pela clonagem de Boreal, a escolha pelos suínos se deve a várias vantagens:

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  • Semelhanças anatômicas e fisiológicas: Os órgãos dos porcos possuem pesos e medidas muito próximos aos humanos.
  • Facilidade de manejo: São animais dóceis, de reprodução rápida e já domesticados há séculos.
  • Compatibilidade biológica: A ciência já utiliza válvulas cardíacas suínas e insulina extraída de seus pâncreas em tratamentos médicos.

Simone Raimundo, pesquisadora do IZ/APTA, reforça que os órgãos suínos atingem o tamanho ideal para transplante em menos tempo e funcionam de maneira similar aos humanos, além de a pele do animal ser usada em casos graves de queimaduras.

Primatas não são uma alternativa viável

Embora os primatas sejam evolutivamente mais próximos dos humanos, Luciano Brito destaca que não há estudos que demonstrem viabilidade para xenotransplantes com esses animais. Os motivos incluem:

  1. Risco de extinção: Primatas africanos de grande porte, que teriam tamanho compatível, estão ameaçados.
  2. Reprodução lenta: Gestações de nove meses para um único filhote, enquanto porcos geram várias crias em cerca de quatro meses.
  3. Questões éticas: A utilização de órgãos de primatas é menos aceita pela sociedade, já que são animais silvestres.

Em contraste, os suínos já são criados para alimentação, o que torna sua utilização mais prática e socialmente aceitável.

Validação da técnica de clonagem

O nascimento de Boreal serviu para validar a técnica de clonagem no Brasil, embora ainda não tenha envolvido modificações genéticas. Os pesquisadores buscam entender a saúde dos clones, que tendem a ser mais debilitados, para garantir que futuramente possam ceder órgãos para humanos.

Inicialmente, pensava-se em usar os descendentes dos clones para transplantes, mas a comunidade científica percebeu que isso poderia reduzir a eficácia das alterações genéticas. Agora, o foco está em estudar os próprios clones para aprimorar o processo.

Após os estudos em Piracicaba, os porcos serão transferidos para um laboratório livre de patógenos em São Paulo, onde novas etapas da pesquisa, incluindo estudos clínicos em humanos, serão realizadas.

Desafios da rejeição imunológica

O principal obstáculo no xenotransplante é a rejeição imunológica, onde o sistema de defesa humano ataca o órgão transplantado. Para contornar isso, a ciência desenvolveu técnicas de modificação genética em porcos:

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  • Remoção de genes: Três genes suínos que causam rejeição rápida em humanos foram eliminados, junto de um gene que evita crescimento excessivo do tecido cardíaco.
  • Inserção de genes humanos: Sete genes ligados à aceitação imunológica foram adicionados ao genoma suíno, ajudando o organismo a reconhecer o órgão como compatível.

No entanto, Luciano Brito ressalta que ainda existem mecanismos de rejeição desconhecidos, e Simone Raimundo pondera que não há garantias de que os órgãos suínos durariam permanentemente no corpo humano, embora a expectativa seja aumentar sua longevidade.

Como ocorreu a clonagem de Boreal

Boreal nasceu saudável, com 2,5 kg, em 24 de março, após seis anos de pesquisas que envolveram cerca de 50 implantes em porcas receptoras. A clonagem seguiu estes passos:

  1. Remoção do núcleo de um óvulo suíno.
  2. Transferência do núcleo de uma célula somática do doador para o óvulo.
  3. Implante dos embriões clones em uma porca receptora.

O domínio dessa técnica é crucial para futuras edições genéticas que permitirão a produção de órgãos adequados para transplantes humanos.

Impacto na fila de transplantes

Com 48.708 pessoas aguardando por transplantes no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, o xenotransplante surge como uma esperança para reduzir mortes por falta de órgãos compatíveis. Silvano Raia, médico pioneiro na área, lamenta que muitos pacientes morrem na fila de espera.

Após estudos clínicos, as conclusões da pesquisa serão avaliadas por órgãos reguladores, e a implementação em hospitais pode levar mais de sete anos. Ainda assim, Simone Raimundo expressa esperança de que, no futuro, os xenotransplantes possam prevenir o agravamento de condições de saúde pela falta de órgãos humanos.

"Eu espero num futuro próximo a gente ter órgãos para quando a pessoa começar um processo de decadência ou falência de um órgão, antes que ela chegue ao limite", afirma a pesquisadora, destacando o potencial da técnica para salvar vidas.