Pesquisador da Unifap recebe prêmio da Academia Ibero-Americana de Farmácia
A Universidade Federal do Amapá (Unifap) alcançou um marco significativo no campo da pesquisa farmacêutica com o desenvolvimento de um medicamento inovador à base de jucá, uma planta amazônica cientificamente conhecida como Libidibia ferrea. Este produto tem como objetivo principal tratar o pé diabético, uma complicação grave do diabetes que pode levar a feridas persistentes, infecções e até amputações se não for adequadamente controlada.
Da tradição popular à inovação científica
O jucá é uma planta comum nos quintais da região amazônica, onde há gerações é utilizado por moradores locais como um cicatrizante natural. Essa rica tradição popular serviu de inspiração para os pesquisadores da Unifap, que decidiram transformar esse conhecimento empírico em ciência de ponta. O professor José Carlos Tavares, coordenador do laboratório de fármacos da universidade, compartilha que sua conexão com a planta vem da infância.
"Nós temos aqui muitos ativos da biodiversidade amazônica que estamos explorando. Tudo começa pelo conhecimento tradicional. Eu cresci vendo na minha família, a minha mãe utilizar o jucá para tratamento de feridas", relembra Tavares, destacando a importância de valorizar os saberes ancestrais.
Propriedades terapêuticas do jucá
Entre as propriedades medicinais do jucá, os estudos identificaram ação anti-inflamatória, antimicrobiana e regenerativa, características que são fundamentais para a cicatrização de feridas. A pesquisa demonstrou que o jucá aumenta o fluxo sanguíneo na área lesionada, o que ajuda a irrigar a região e acelera significativamente o processo de cura. Esses benefícios são particularmente relevantes para pacientes com pé diabético, que frequentemente enfrentam problemas de circulação e perda de sensibilidade.
Etapas da pesquisa e aprovação regulatória
As pesquisas com o jucá iniciaram-se em 2024 e passaram por diversas etapas da fase pré-clínica. A pomada desenvolvida com a planta já concluiu todos os testes necessários e agora será submetida à avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A expectativa é que, após a aprovação, o produto possa ser oferecido no Sistema Único de Saúde (SUS) como uma alternativa mais acessível e com melhor custo-benefício.
"A nossa visão é introduzir todos os nossos produtos no SUS. Esse é o resultado de um investimento público em pesquisa que possa gerar benefícios para a saúde humana", afirmou Tavares, enfatizando o compromisso com a saúde pública.
Casos de sucesso e impacto clínico
Em um dos casos acompanhados pela equipe, um paciente que utilizou um spray à base de jucá apresentou uma melhora notável. O quadro era considerado irreversível e havia indicação de amputação, mas o tratamento com o spray desenvolvido pela Unifap evitou a perda do membro. Tavares explica que o produto é feito com nanopartículas a partir de uma resina de jucá, que atua sobre os biofilmes bacterianos, um dos grandes desafios no tratamento de feridas complexas.
Ampliação das pesquisas e apoio institucional
Além do jucá, o laboratório da Unifap também está desenvolvendo produtos com óleos de alecrim e larício, ampliando o portfólio de medicamentos naturais. A previsão é que esses novos produtos sejam testados ainda este ano em pacientes atendidos na Unidade Básica de Saúde (UBS) da universidade, que há cerca de 20 anos trata casos de pé diabético e recebe diariamente diversos pacientes.
O projeto conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Hospital Universitário (HU) e de empresas ligadas à bioeconomia, reforçando a importância das parcerias para o avanço da ciência brasileira.
O que é o pé diabético?
O pé diabético é uma complicação do diabetes caracterizada por feridas e infecções nos pés, causadas por problemas de circulação e perda de sensibilidade. Sem tratamento adequado, pode evoluir para gangrena e levar à amputação, representando um sério desafio para a saúde pública. A busca por tratamentos eficazes e acessíveis, como o desenvolvido pela Unifap, é crucial para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.