Da injeção ao comprimido: como a indústria farmacêutica transformou o Ozempic em pílula
Ozempic vira pílula: revolução no tratamento da obesidade

Da injeção ao comprimido: a revolução farmacêutica que transforma tratamentos para obesidade

A indústria farmacêutica está prestes a alcançar um marco histórico com a chegada de pílulas potentes para perda de peso, como as versões orais de Ozempic e Wegovy. Esses comprimidos, que devem revolucionar o mercado a partir de 2026, representam a superação de décadas de desafios científicos para transformar tratamentos injetáveis em opções diárias e acessíveis.

O desafio de transformar injeções em comprimidos

Durante anos, converter medicamentos que necessitam de aplicação na pele ou veias em simples comprimidos engolidos com água foi um dos maiores obstáculos da farmacologia. Esse desafio persiste em pesquisas com insulina para diabetes ou anticorpos monoclonais, mas foi vencido com os análogos de GLP-1, princípio ativo das canetas para obesidade.

A conversão não é simples, pois envolve driblar o ambiente ácido do estômago e assegurar a absorção pelo aparelho digestivo, algo extremamente complexo com moléculas grandes e frágeis como o análogo de GLP-1.

A tecnologia por trás da inovação

A Novo Nordisk, companhia dinamarquesa, conseguiu transformar a semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, em uma pílula diária chamada Wegovy oral, já aprovada nos Estados Unidos. Paralelamente, a Eli Lilly desenvolve a orforgliprona, outro comprimido baseado em GLP-1.

Os estudos clínicos demonstraram segurança e eficácia muito próximas das versões injetáveis, com expectativa de aprovação no Brasil ainda este ano.

Superando barreiras com o sistema SNAC

O principal obstáculo foi proteger a molécula da degradação no estômago, onde proteínas são naturalmente destruídas. A solução veio com a aquisição do sistema SNAC, criado pela Emisphere Technologies, que envolve o princípio ativo e neutraliza a acidez gástrica.

  • O SNAC cria um microambiente protetor que impede a destruição por enzimas digestivas.
  • Interage com as células do estômago, aumentando a permeabilidade e facilitando a absorção.
  • Foca na absorção no estômago, diferentemente de tentativas anteriores que buscavam apenas o intestino.

Dosagem e administração: ajustes necessários

Mesmo com o SNAC, a absorção é baixa, apenas 1% do remédio oral chega à circulação. Para equivaler à dose injetável de 1 mg de semaglutida, é necessário 14 mg no comprimido, justificando a administração diária.

  1. Os pacientes devem tomar o remédio em jejum, com no máximo meio copo de água.
  2. É preciso esperar 30 minutos antes de comer ou usar outras medicações.
  3. Isso garante funcionamento consistente, considerando a variabilidade na absorção.

Do diabetes à obesidade: ampliando o arsenal terapêutico

A semaglutida oral, comercializada como Rybelsus no Brasil desde 2022, já beneficia o tratamento do diabetes tipo 2. Para obesidade, testes com 25 mg de semaglutida deram origem ao Wegovy pill, com eficácia semelhante à versão injetável.

Essa inovação amplifica o leque de escolhas para pacientes, com pesquisas indicando que 80% das pessoas com diabetes preferem medicamentos orais. Além disso, comprimidos não dependem da logística e refrigeração de injetáveis, potencializando o acesso.

Marília Fonseca, diretora médica da Novo Nordisk no Brasil, destaca: "Com essa inovação, oferecemos todos os benefícios e o perfil de segurança da semaglutida em um comprimido, o que abre uma nova fronteira para o tratamento da obesidade."

Este avanço não apenas marca um novo capítulo na farmacologia, mas também aborda um dos desafios mais urgentes da saúde pública, oferecendo esperança para milhões em busca de tratamentos mais acessíveis e convenientes.