Estudo robusto enterra suposta ligação entre paracetamol na gravidez e autismo
Uma pesquisa científica de grande escala publicada na renomada revista Jama Pediatrics apresentou evidências robustas que descartam qualquer relação significativa entre o uso de paracetamol durante a gravidez e o desenvolvimento de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em crianças. O estudo dinamarquês analisou dados de mais de 1,5 milhão de crianças, oferecendo uma das análises mais abrangentes já realizadas sobre este tema polêmico.
Metodologia rigorosa e resultados conclusivos
Os pesquisadores do Hospital Universitário de Copenhague utilizaram registros nacionais da Dinamarca para acompanhar crianças nascidas entre janeiro de 1997 e julho de 2022. O acompanhamento durou até um ano de idade ou até o diagnóstico de autismo, considerando o que ocorresse primeiro. "Neste estudo de coorte nacional, a exposição ao paracetamol durante a gravidez não foi significativamente associada a um risco excessivo de autismo", afirmaram os autores na publicação.
Os cientistas destacaram que, considerando os limites superiores do intervalo de confiança estatística, é improvável que exista um risco relativamente maior que 12% de autismo associado à exposição ao medicamento. Esta conclusão vem para esclarecer uma questão que ganhou destaque no ano passado, quando os Estados Unidos anunciaram alterações na bula do paracetamol mencionando uma "possível associação" com problemas de desenvolvimento neurológico.
Contexto internacional e posicionamento de agências reguladoras
Logo após o anúncio norte-americano, várias agências reguladoras internacionais se manifestaram sobre o assunto:
- A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que "as evidências permaneciam inconsistentes"
- A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos para a Saúde do Reino Unido (MHRA) refutou a associação
- A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) também não encontrou relação causal comprovada
Alison Cave, diretora de segurança da MHRA, fez um alerta importante: "O paracetamol continua sendo a opção recomendada para o alívio da dor em gestantes, quando usado conforme as instruções. Dor e febre não tratadas podem representar risços para o feto".
Análise de estudos anteriores e fatores de confusão
Os pesquisadores dinamarqueses citaram um estudo sueco que inicialmente sugeriu um pequeno aumento no risco de autismo, mas destacaram que, quando os mesmos dados foram analisados comparando irmãos das crianças estudadas, os próprios pesquisadores suecos descartaram a associação. Esta revelação aponta para a possibilidade de fatores de confusão residuais que podem ter influenciado resultados anteriores.
No final do ano passado, o periódico científico The BMJ convocou revisores independentes para avaliar a qualidade das evidências existentes sobre o tema. Eles analisaram nove revisões sistemáticas que incluíam 40 estudos publicados na última década e constataram:
- Sete das nove revisões recomendaram cautela na interpretação dos resultados
- A confiança nos resultados foi classificada como baixa a criticamente baixa
- Há risco potencial de viés e fatores de confusão nos estudos incluídos
Esta nova pesquisa dinamarquesa, com sua metodologia robusta e amostra extremamente ampla, oferece agora evidências mais sólidas para tranquilizar gestantes e profissionais de saúde sobre a segurança do paracetamol quando usado conforme as orientações médicas adequadas.



