Cefaleia em salvas: a pior dor do mundo?
A cefaleia em salvas é frequentemente descrita como uma das dores mais intensas que um ser humano pode experimentar. Pacientes comparam a sensação a ter um prego e um martelo dentro da cabeça. A dor surge repentinamente, forte e lancinante, gerando desespero. Bárbara, que teve sua primeira crise aos dez anos, lembra: “Eu achava que ia morrer”. Ela convive com essa doença neurológica rara, que afeta cerca de uma em cada mil pessoas e pode aparecer em qualquer idade.
Sintomas e diagnóstico
As crises duram de 15 minutos a três horas, com dor extremamente intensa, geralmente ao redor de um dos olhos, na têmpora ou acima da órbita. Segundo neurologistas, “é como se o cérebro disparasse um alarme para uma lesão que não existe”. O nervo trigêmeo inflama e dispara a crise. O alívio é imediato quando a dor passa, mas as crises retornam, muitas vezes à noite. Bárbara relata: “Tenho medo de dormir, porque sei que posso acordar com a dor”.
O diagnóstico é um desafio. Muitos pacientes passam por clínicos gerais, otorrinolaringologistas, oftalmologistas e dentistas antes de chegar ao neurologista. Angelita levou quase três anos para obter o diagnóstico correto e faz tratamento pelo SUS no Hospital das Clínicas de São Paulo. “Se eu tivesse que comprar os remédios, não daria”, conta. Mesmo com medicação, as crises podem persistir. Durante uma entrevista, Angelita teve uma crise que durou quase dez minutos até o remédio fazer efeito.
Comparação com enxaqueca
A cefaleia em salvas é frequentemente confundida com enxaqueca, que é mais comum. Na enxaqueca, o paciente busca silêncio e ambientes escuros, enquanto na cefaleia em salvas, o paciente fica inquieto e agitado. Nas mulheres, oscilações hormonais podem desencadear enxaqueca, que afeta três vezes mais mulheres que homens. Cerca de 23 milhões de brasileiros têm diagnóstico de enxaqueca, e outros 27 milhões apresentam sintomas sem diagnóstico formal. A subnotificação está ligada ao medo de represálias no trabalho ou estudos: mais de 60% relatam queda de produtividade durante as crises. Apesar disso, 69% das pessoas com enxaqueca não fazem acompanhamento com neurologista e recorrem à automedicação.
Marina, outra paciente, usava analgésicos comuns até descobrir que existem remédios específicos para enxaqueca. Hoje, ela usa as redes sociais para alertar sobre a importância de procurar ajuda médica. “Essa semana foi superintensa. Tive dor de cabeça todos os dias. Afeta o humor, a rotina, tudo”, relata.
Tratamento e orientações
Para a cefaleia em salvas, o diagnóstico correto é essencial. O Ministério da Saúde orienta procurar unidades básicas de saúde e, em casos suspeitos, encaminhamento para atenção especializada. O registro das crises em um calendário da dor ajuda no acompanhamento médico. Estudos mostram que a cefaleia em salvas recebe nota 9,7 em escala de dor de 0 a 10, superando a dor do parto (média 7,2). Os sinais que antecedem a crise incluem nariz entupido, lacrimejamento, queda da pálpebra e dor sempre do mesmo lado da cabeça, mas são confundidos com sinusite ou outras dores de cabeça.
Para Bárbara, Angelita, Marina e milhões de brasileiros, o diagnóstico correto é o primeiro passo para recuperar qualidade de vida e deixar de enfrentar sozinhos uma das dores mais intensas que existem.



