O fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley faleceu aos 22 anos, e a causa apontada no atestado de óbito é cardiomiopatia hipertrófica. Essa doença provoca o espessamento anormal do músculo cardíaco, podendo levar a arritmias graves, insuficiência cardíaca e morte súbita.
O que é a cardiomiopatia hipertrófica
Segundo o cardiologista Elzo Mattar, diretor do departamento de hipertensão arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto, a doença pode ter origem genética ou ser adquirida ao longo da vida, inclusive com participação do uso de esteroides anabolizantes. A forma genética é considerada uma das principais causas de morte súbita em pessoas com menos de 35 anos no Brasil e no mundo.
“Nesse tipo de cardiopatia, geralmente apenas uma das paredes do coração fica hipertrofiada, de maneira assimétrica, sem uma justificativa aparente para esse crescimento”, explica Mattar. A cardiomiopatia hipertrófica genética costuma ser hereditária, com transmissão autossômica dominante. Isso significa que filhos de pessoas diagnosticadas têm cerca de 50% de chance de herdar a alteração genética.
Esforço físico como gatilho
Em muitos casos, a doença permanece silenciosa até que um esforço físico intenso provoque uma arritmia grave. Segundo o cardiologista, quando a pessoa faz atividade física e acelera os batimentos cardíacos, esse aumento da demanda pode desencadear arritmias malignas, como taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular.
“O coração entra em colapso e deixa de conseguir manter o fluxo sanguíneo adequado para o cérebro e outros órgãos. Se não houver reversão rápida, o quadro pode evoluir para parada cardiorrespiratória e morte”, afirma. Os sintomas podem incluir falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura e desmaios. Mas, em alguns pacientes, a morte súbita pode ser a primeira manifestação da doença.
Como anabolizantes afetam o coração
Além da forma genética, especialistas alertam que a cardiomiopatia também pode ser adquirida ao longo da vida. Entre os fatores associados está o uso de esteroides anabolizantes. Segundo Mattar, essas substâncias podem elevar a pressão arterial e aumentar excessivamente a carga de trabalho do coração.
“O coração passa a trabalhar contra uma resistência maior e começa a sofrer hipertrofia. Só que esse crescimento acontece de forma desorganizada”, explica. Com o aumento acelerado da parede cardíaca, a circulação sanguínea dentro do músculo do coração pode não conseguir acompanhar o crescimento do tecido.
“O sangue chega ao músculo cardíaco por pequenas ramificações das coronárias. Quando a parede cresce muito rápido, a circulação não acompanha. Algumas células começam a morrer, gerando áreas de necrose e fibrose”, diz. Essas pequenas cicatrizes no músculo cardíaco funcionam como um “substrato” para o aparecimento de arritmias graves.
“A fibrose favorece o surgimento de arritmias malignas”, afirma. O especialista também alerta que os esteroides podem causar danos à microcirculação coronariana e aumentar o risco de formação súbita de coágulos. “Um usuário pode aparentemente ter uma vida normal e, de uma hora para outra, desenvolver uma trombose coronariana aguda, evoluir para um infarto e sofrer morte súbita”, explica.
Onde entra a insulina nesse cenário
Além dos anabolizantes, Gabriel Ganley também havia relatado nas redes sociais o uso de insulina para fins estéticos e de ganho muscular. Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que a insulina atua de maneira diferente dos esteroides e não provoca diretamente a cardiomiopatia hipertrófica. Ainda assim, ela pode aumentar os riscos quando usada sem indicação médica, principalmente em combinação com outras substâncias.
Fisiculturistas usam a insulina porque o hormônio favorece a entrada de nutrientes nas células e estimula a síntese de proteína muscular. O problema é que, em pessoas sem diabetes, o uso pode provocar hipoglicemia grave — queda perigosa dos níveis de açúcar no sangue. Segundo endocrinologistas ouvidos pelo g1, episódios severos de hipoglicemia podem causar confusão mental, convulsões, coma e até morte.
Além disso, o uso simultâneo de insulina, anabolizantes, estimulantes e diuréticos pode aumentar o estresse cardiovascular e favorecer arritmias, desidratação e alterações metabólicas que sobrecarregam o coração.
Diagnóstico e acompanhamento
O diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica costuma ser feito por exames como ecocardiograma, eletrocardiograma e ressonância magnética cardíaca. Como a forma genética é hereditária, especialistas recomendam que familiares próximos também sejam avaliados após a confirmação do diagnóstico.
O tratamento varia conforme a gravidade do quadro e pode incluir medicamentos, restrição de exercícios de alta intensidade e, em alguns casos, implante de desfibriladores cardíacos para prevenir arritmias fatais.
No caso de Gabriel Ganley, a causa da morte ainda é investigada oficialmente. O atestado de óbito menciona cardiomiopatia hipertrófica associada a edema pulmonar e insuficiência cardíaca congestiva.



