Licença-paternidade ampliada: pais relatam transformação e vínculo com filhos
Ter mais tempo com a filha e participar ativamente de sua rotina parecia uma realidade distante para o empresário Renato Peres, de 44 anos. Há sete anos, quando sua primeira filha nasceu, ele teve direito a 20 dias de licença-paternidade e participou intensamente do dia a dia da criança. Embora considere que o ideal seria permanecer mais tempo em casa, ele afirma que o período foi fundamental para criar um vínculo sólido com a bebê. "Eu mudei muito após minha experiência no convívio familiar. Me conectei com a minha filha, amava dar banho, trocar fralda, cuidar e ninar", relata.
Ampliação progressiva da licença-paternidade
Assim como Renato, outros pais poderão se beneficiar da ampliação da licença-paternidade no Brasil nos próximos anos. Em 31 de março passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 15.371/2026, que prevê o aumento progressivo do período de afastamento. A mudança começa a ser aplicada de forma escalonada, com o tempo mínimo atual de cinco dias sendo ampliado gradualmente ao longo dos próximos anos. A proposta é que o período chegue a 20 dias até 2029, permitindo uma adaptação tanto por parte das empresas quanto dos trabalhadores e ampliando o tempo de convivência entre pais e filhos logo após o nascimento ou adoção.
Quebrando padrões tradicionais
Especialistas apontam que a medida ajudará os pais a exercerem um papel ainda mais ativo nos primeiros dias da criança, quebrando padrões e conceitos de que apenas as mulheres têm funções de cuidado sobre os filhos. Durante os dias de sua licença-paternidade, Renato conta que a experiência com a filha fez com que ele enxergasse ainda mais a importância de ser um pai presente. "Uma das lembranças mais felizes da minha vida foi quando ela adormeceu em meu colo à noite. Porque ela sempre procurava a mãe", diz. "Naquele momento, me senti acolhido, como um porto seguro e isso só foi possível porque ela tinha um pai presente."
Mesmo vendo como um avanço o prolongamento de dias em relação ao benefício, ele acredita que as empresas deveriam aumentar ainda mais o prazo de afastamento. "Eu acredito que 20 dias ainda é pouco. É comum entre as mulheres 'emendar' a licença maternidade com férias (nos casos de regime CLT), hoje, vendo num médio prazo, eu teria feito o mesmo", afirma.
Experiência de 50 dias em casa
A experiência de Victor Bocciadi, 44 anos, reforça o impacto do tempo disponível nos primeiros meses após o nascimento. Engenheiro e pai de duas meninas, ele teve direito a 20 dias de licença-paternidade nas duas ocasiões, mas conseguiu estender a permanência em casa ao emendar o período com as férias, chegando a cerca de 50 dias no nascimento da segunda filha, que agora tem seis meses de idade. Segundo ele, o afastamento foi decisivo para participar da adaptação da família à nova rotina e oferecer suporte à esposa, especialmente após a segunda gestação, que exigiu a recuperação de uma cesariana.
Durante esse período, Victor assumiu tarefas da casa e cuidados com as filhas, como dar banho, trocar fraldas e acompanhar a filha mais velha na rotina diária. Ele avalia que o tempo ampliado permitiu acompanhar fases mais exigentes do bebê, como episódios de cólica e mudanças no sono, o que também impacta a dinâmica da casa. Para ele, a presença do pai ajuda a reduzir a sobrecarga materna e contribui para a construção do vínculo desde o início. "Se pudesse chegar a 60 dias de licença, seria o ideal. São os meses mais complexos", diz.
Construção de vínculo afetivo
A ampliação do tempo de convivência entre pais e filhos nos primeiros meses após o nascimento pode ter efeitos que se estendem por anos. Segundo especialistas, a participação ativa do pai nesse período está associada à construção do vínculo afetivo e a indicadores positivos no desenvolvimento da criança. Para Rodolfo Canonico, diretor de relações institucionais do Family Talks e cofundador da Coalizão Licença-Paternidade, a presença paterna funciona como um fator de proteção.
"Um pai presente na vida da criança está associado a melhores desfechos acadêmicos, redução da evasão escolar, melhores indicadores de saúde mental e menor exposição a contextos violentos", afirma. De acordo com ele, o envolvimento desde o início fortalece a relação e aumenta a probabilidade de esse vínculo se manter ao longo da vida.
Reequilíbrio do cuidado e aproximação do casal
Apesar de avanços no debate sobre paternidade, a divisão de tarefas dentro de casa ainda segue marcada por desigualdades. A ampliação da licença-paternidade, ao permitir que o homem permaneça mais tempo no ambiente doméstico, abre espaço para uma participação mais direta no cuidado com o bebê e na rotina da casa. Para a psicóloga Maria Carolina Thedim, especialista em terapia sistêmica relacional pelo EntreNós Instituto, a presença do pai tende a levá-lo a assumir atividades que, historicamente, ficaram concentradas na mulher.
"Com o pai mais tempo em casa, ele vai ser chamado para participar das atividades que envolvem o bebê e uma casa funcional", afirma. O movimento, no entanto, não acontece de forma automática. "Não basta estar disponível. É preciso entender como essa pessoa vê o cuidado e como coloca isso em prática", diz.
Entraves à execução da licença mais longa
Apesar do avanço na legislação, a ampliação da licença-paternidade ainda enfrenta barreiras que vão além do tempo disponível. Entre os principais entraves está a dificuldade de muitos homens se reconhecerem no papel de cuidador desde o início da vida dos filhos. Para Thedim, a mudança exige mais do que presença física. "O maior obstáculo é os pais poderem se ver nesse novo papel", afirma.
Segundo ela, há uma ideia pré-estabelecida do que é ser pai, construída ao longo de gerações, que limita o envolvimento mais ativo. "Não é só ter tempo. É preciso disponibilidade emocional para se envolver de forma completa no cuidado", diz. A falta de repertório também aparece como um fator relevante. Para Canonico, experiências familiares anteriores influenciam diretamente a forma como homens se relacionam com a paternidade. "Se um homem nunca viu outro homem cuidar de uma criança, ele não tem ideia do que fazer", afirma.



