Mulheres chefiam maioria dos lares vulneráveis em Itapetininga
Itapetininga, no interior de São Paulo, possui 21.457 famílias cadastradas no Cadastro Único (CadÚnico), principal instrumento do Governo Federal para identificar pessoas em situação de vulnerabilidade social no país. Deste total, impressionantes 78,6% são chefiadas por mulheres, o que representa 16.945 lares. Os dados foram divulgados no último levantamento do Observatório do Cadastro Único, elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), em janeiro deste ano.
Realidade se repete em outras cidades da região
As mulheres, de maneira geral, constituem a grande maioria no cadastro governamental, mesmo sem integrar ambientes familiares tradicionais. Essa predominância feminina também supera o número de homens em outras cidades da região, como Tatuí, Itararé e Itapeva, todas no estado de São Paulo.
História de superação de uma mãe solo
Para o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, destacamos a história de Valdineia Gomes, moradora de Itapetininga que criou três filhos sozinha e enfrentou uma luta constante contra o preconceito. "Minha história é como a das mães que criaram seus filhos sozinhas. Da primeira filha, eu me separei depois de dois anos casada. Tinha um marido que bebia muito, era violento. Decidi separar para não viver a mesma vida que a minha mãe viveu", relata Valdineia.
Ela teve a primeira filha aos 18 anos e, durante todo o período, contou com a ajuda da mãe, que cuidava da bebê enquanto ela trabalhava como empregada doméstica. "Eu falei a ele que não dava mais para ficarmos juntos justamente por conta da bebida e nos separamos. Voltei a morar com a minha mãe, mas ela me aconselhava a não entrar com alguma medida judicial devido ao alcoolismo dele, que é uma doença. Então, preferi me virar e trabalhar, para não sustentar alguém que não me fazia bem", revela.
Desafios da criação solo
Após o nascimento da primeira filha, Valdineia teve outros dois filhos de relacionamentos subsequentes, que também foram conturbados. Segundo ela, apesar de manter algum contato com todos os pais, nenhum deles participou ativamente na criação das crianças. "Nunca me deram pensão alguma, sempre fui eu batalhando para cuidar de três crianças sozinha. Eu não era de trocar de emprego com frequência, mas tive que trabalhar bastante para fazer tudo dar certo", pontua.
Preconceito e evolução social
No convívio social, Valdineia enfrentou preconceito frequente por ser mãe solo durante os anos 1990. Ela afirma que a situação melhorou ao longo do tempo, mas o tema ainda não é visto de forma totalmente positiva por muitas pessoas. "Sempre somos vistas como 'vagabundas', que arrumamos alguém sempre por interesse, porque querem que ajude a criar os filhos. Escolhi ficar sozinha justamente para não ouvir coisas que saberia que não gostaria", destaca.
"Hoje em dia, parece que as mães solo possuem mais facilidade para conseguir uma pensão, seja por apoio ou por acesso às medidas judiciais. Eu vejo minha neta, o quanto ela fica nervosa com o pai da filha dela. Ele não visita a filha. Para mim, a escolha solo foi melhor", completa.
Importância dos benefícios sociais e apoio familiar
Em uma das gestações, Valdineia precisou recorrer ao Bolsa Família, programa do governo federal, para conseguir sustentar a si mesma e aos filhos. Para ela, além do benefício social, o apoio da família foi fundamental. "Graças a Deus eu tinha a minha mãe, que me ajudava bastante. Nunca cheguei a passar por uma situação de aperto financeiro extremo. Não queria passar necessidade porque eu passava quando a minha mãe separou do meu pai. Sempre dei o meu melhor para dar o melhor a eles", finaliza.
Orientações jurídicas e assistenciais
A advogada Emanuela Barros, especialista nos direitos de violência contra a mulher, explica que, em casos de abandono parental, a melhor opção é procurar a assistência social do município. Em 2023, o presidente Luís Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que prevê um auxílio-aluguel para mulheres vítimas de violência doméstica.
"Se ela já está cadastrada no CadÚnico, é importante ver se ela tem acesso ao Bolsa Família. Existem outras alternativas, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) ou a Lei Orgânica da Assistência Social (Loas), se tiver algum filho com deficiência, por exemplo", compartilha.
Além disso, a especialista reforça a importância de procurar uma unidade do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) na cidade. Na questão de violência doméstica, existem outros programas do Governo Federal voltados ao assunto, como a prioridade do "Minha Casa, Minha Vida".
"É sempre importante procurar o Creas ou a Secretaria de Assistência Social. No caso do 'Minha Casa, Minha Vida', as mulheres terão preferência de auxílio para que elas sejam contempladas, dependendo da vulnerabilidade social. Mesmo quando a mulher já tenha um CadÚnico, é importante informar isso no Cras, porque a renda da família vai mudar", reforça.



