Anvisa estabelece regras para cultivo e pesquisa de cannabis medicinal no Brasil
Anvisa define regras para cultivo de cannabis medicinal

Anvisa estabelece marco regulatório para cannabis medicinal no Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, no início deste mês, um conjunto de resoluções que detalham minuciosamente como será realizado o cultivo de cannabis em território brasileiro. As novas normas entrarão em vigor a partir de agosto, marcando também o início de um "sandbox experimental" – um período de cinco anos durante o qual a agência testará atividades relacionadas à cannabis fora do modelo industrial tradicional e em pequena escala.

Facilitação para pesquisas científicas

A coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas da Universidade de Brasília (UnB), Andrea Gallassi, celebra o avanço regulatório. Em entrevista, ela explica que as novas regras devem facilitar significativamente a realização de estudos científicos. Até o momento, cada nova pesquisa exigia uma autorização específica da Anvisa, mas isso mudou radicalmente.

"Com as novas resoluções, você amplifica o processo da pesquisa científica. Em uma única autorização guarda-chuva, cabem várias pesquisas", detalha Gallassi. Além de investigar novas aplicabilidades terapêuticas, a autorização para pesquisa permite analisar rótulos e produtos com cannabis – incluindo óleos produzidos por associações de pacientes.

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Modelo regulatório experimental

O pacote normativo cria um ambiente regulatório experimental para testar, sob supervisão da agência, modelos de fornecimento fora do padrão industrial – como os adotados por associações de pacientes. Com isso, a Anvisa normatiza toda a cadeia produtiva, do cultivo ao uso dos produtos, e passa a permitir que empresas cultivem a planta para fins medicinais e farmacêuticos.

"No modelo sandbox, como estão chamando o modelo regulatório experimental, vamos poder analisar os óleos para verificar qualidade e poder ajudar associações a extraírem produtos adequados", complementa a especialista.

Impacto nas associações de pacientes

As mudanças também podem favorecer a atuação de entidades como a Associação Brasileira do Pito do Pango (Abrapango), que atua na defesa do acesso seguro e humanizado à cannabis medicinal. A ONG, com sede em Brasília, oferece suporte jurídico e técnico a pacientes, capacita profissionais da saúde e também produz e comercializa medicamentos à base de cannabis.

Para Monica Barcelos, diretora executiva da Abrapango, a tendência é de expansão consistente. "As associações já produzem dados reais de uso terapêutico no Brasil. Isso deve evoluir para protocolos mais estruturados, estudos clínicos observacionais e parcerias científicas, gerando evidências nacionais em condições como TEA [transtorno do espectro autista], dor crônica, doenças neurodegenerativas, entre outras", afirma.

Quem pode cultivar e pesquisar

As novas regras autorizam o cultivo para pesquisa científica por:

  • Universidades
  • Instituições de ciência e tecnologia
  • Órgãos de segurança pública
  • Fabricantes de medicamentos

Todo o processo será realizado sob rigorosas regras de segurança e fiscalização, inclusive para variedades da planta com maior teor de THC.

Perspectivas para a pesquisa nacional

Na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a nova regulamentação permite estruturar oficialmente um programa científico dedicado à Cannabis sativa, com foco em genética, manejo, industrialização e políticas públicas. Segundo Daniela Bittencourt, pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o ambiente regulatório mais definido abre oportunidade para o Brasil construir uma cadeia produtiva estruturada.

"A regulamentação cria um ambiente mais previsível para transformar pesquisa em solução: viabiliza planejamento de infraestrutura, parcerias e rotinas de rastreabilidade e controle, e dá mais segurança para que a cadeia se organize com padrões de qualidade", afirma Bittencourt.

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Desafios e próximos passos

A pesquisadora aponta, no entanto, desafios importantes: é necessário maior clareza sobre o caminho para o cultivo e uso medicinal de materiais com maior teor de THC, além da regulamentação do cânhamo para fins industriais. O cânhamo industrial é uma planta da espécie Cannabis sativa cultivada para uso industrial e comercial, com baixo teor de THC, podendo ser usado em medicamentos, cosméticos, alimentos, roupas, acessórios e até instrumentos musicais.

Bittencourt também destaca a necessidade de políticas públicas que estimulem o setor industrial e garantam inclusão produtiva, com participação de pequenos produtores. "Se o país seguir alinhando regulação, ciência e políticas públicas, a cannabis pode se conectar de forma consistente à agenda nacional de bioeconomia e desenvolvimento", declara.

A confirmação de muitos aspectos práticos, no entanto, só virá quando a Anvisa publicar os editais de chamamento do "sandbox" regulatório. "Só então, saberemos se as associações serão incluídas de forma justa ou se permaneceremos em um modelo excludente", finaliza Monica Barcelos.