A recusa do Senado em aprovar Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) representa o maior revés político da Era Lula, que já dura dezoito anos, e figura entre as derrotas mais significativas do Poder Executivo ao longo da história republicana. Por essa razão, trata-se, sem dúvida, de um acontecimento de significado claro e potencialmente devastador.
Falhas de articulação e gestão política
Não é uma questão de ordem pessoal. O próprio Jorge Messias foi o menos culpado pelo resultado, tendo apresentado uma atuação sólida durante a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. O episódio, no entanto, expõe um governo sem articulação. O retrato do chamado Lula 3, pelo menos até o momento, será marcado pela derrota contundente sofrida no Senado.
Considerando a dinâmica política de Brasília, não surpreende que o governo não tenha conseguido reunir os votos suficientes. As causas, porém, não são pontuais nem passageiras. Resultam de um conjunto de equívocos na gestão política. Existe uma falha estrutural tanto na coordenação quanto na leitura do cenário institucional.
Esse desfecho também evidencia a dificuldade de restabelecer uma relação de confiança com o Congresso. O governo não compreendeu que o “software político” vigente é substancialmente diferente daquele que funcionava nos períodos de Lula 1 e Lula 2. O Lula 3 mostrou-se, nesse sentido, um governo incompleto, demasiadamente dependente do Supremo Tribunal Federal e da liberação de verbas orçamentárias como ferramentas de governabilidade.
Impactos no STF e na oposição
O episódio também afeta o próprio STF. A atuação recente da Corte em oposição ao Legislativo — sobretudo em decisões que envolvem parlamentares por suas manifestações políticas — contribuiu para acirrar o clima. A mensagem, portanto, não é direcionada somente ao Executivo, mas alcança igualmente o Judiciário. Acrescente-se o fato de que ministros de peso agiram abertamente contra a indicação de Messias. Para a oposição, derrotar o governo significava, na prática, impedir o crescimento de uma possível “bancada governista” dentro do Supremo.
Fragilização e perspectivas futuras
Sob a perspectiva política, o governo, que já estava enfraquecido, sai ainda mais fragilizado. A tendência aponta para novas derrotas, como na possível votação do veto à Lei da Dosimetria, o que ampliaria o desgaste tanto do Executivo quanto da imagem do STF. No curto prazo, não existe clima político favorável a uma nova indicação para a vaga em aberto na Corte.
De modo geral, o episódio alimenta a percepção de que o ciclo político do Lula 3 está se encerrando antes do tempo. Nos bastidores do poder, pode se instalar um clima de fim de governo — aquele momento em que o café, outrora quente, já chega frio aos gabinetes. Contudo, em política, os desdobramentos podem ser imprevisíveis.
- Uma reaproximação entre Lula e Davi Alcolumbre em torno de uma nova indicação e apoio às agendas do governo, com a aceitação de condições equivalentes a uma chantagem política.
- O aparelho governamental agir contra os interesses de Alcolumbre, numa espécie de retaliação.
- O governo permanecer paralisado por algum período, em busca de uma saída.
Em política, tudo é possível — inclusive que nada mude.
Outros reveses e crise de popularidade
No meio da derrota no Senado, o governo recebeu mais uma notícia negativa: a suspensão, pelo TCU, de novos empréstimos consignados e da renovação dos já existentes — medida que deverá irritar aqueles que recorrem a esse mecanismo para quitar suas dívidas. O que poderá vulnerar ainda mais a decadente aprovação popular do governo.
Por fim, o acúmulo de derrotas políticas, os altos índices de desaprovação e o desgaste de imagem podem fortalecer, no presidente Lula, a vontade de abrir mão da candidatura e criar um novo cenário — movimento que poderia, inclusive, revitalizá-lo politicamente. Enquanto isso, Brasília continua fervilhando em especulações e a crise institucional prosseguirá intensa.



