Atleta ucraniano é desclassificado da Olimpíada de Inverno por capacete com homenagem a mortos na guerra
Em um episódio que mistura esporte, política e tragédia, o atleta ucraniano Vladislav Heraskevych foi desclassificado das Olimpíadas de Inverno de 2026, realizadas na Itália, após se recusar a competir sem um capacete customizado com imagens de compatriotas mortos na guerra na Ucrânia. Heraskevych, que participa da modalidade skeleton, onde os competidores descem um circuito de bruços sobre um trenó, enfrentou uma decisão judicial urgente, mas a Corte Arbitral do Esporte negou seu recurso, mantendo a proibição imposta pelo Comitê Olímpico Internacional.
O conflito entre homenagem e regulamento
O capacete em questão era adornado com fotografias de atletas ucranianos que perderam a vida durante o conflito, uma homenagem pessoal que Heraskevych considerava essencial. No entanto, o COI argumentou que expressões políticas não são permitidas nas competições, seguindo diretrizes estabelecidas para manter a neutralidade dos Jogos. A entidade chegou a sugerir, como medida excepcional, que o atleta usasse uma braçadeira preta no lugar do capacete, mas ele se recusou, afirmando que isso comprometeria sua dignidade e a memória dos homenageados.
Em um comunicado, o COI explicou que Heraskevych "não poderá participar" dos Jogos Olímpicos de Inverno "após se recusar a cumprir as diretrizes sobre a expressão dos atletas". A presidente do COI, Kirsty Coventry, defendeu a decisão, embora tenha expressado apoio à liberdade de expressão em geral. O caso ganhou contornos internacionais, com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, criticando publicamente a medida, dizendo que "o esporte não deveria significar amnésia".
Quem eram os atletas homenageados no capacete
O capacete memorial incluía imagens de diversos esportistas ucranianos, cujas vidas foram interrompidas pela guerra. Entre eles estavam:
- Alina Perehudov, halterofilista de 14 anos, morta em ataque russo em Mariupol em abril de 2022.
- Daria Kurdel, dançarina de 20 anos, falecida em bombardeio em Kryvyi Rih em julho de 2022.
- Fedir Yepifanov, esgrimista campeão nacional, morto aos 18 anos em batalha em dezembro de 2023.
- Ivan Kononenko, ator e atleta, falecido aos 42 anos em combate em Kursk em dezembro de 2025.
- Pavlo Ishchenko, halterofilista campeão mundial e europeu, que continuou competindo mesmo durante a guerra e morreu em combate em 2025.
- Yevhen Malyshev, biatleta de 19 anos, morto em batalha em Kharkiv em março de 2022.
- Kateryna Diachenko, ginasta de 11 anos, vitimada em bombardeio russo em Mariupol.
- Viktoria Ivashko, judoca de 9 anos, morta com sua mãe em ataque russo em Kiev.
Esses são apenas alguns dos nomes que compunham a homenagem, totalizando mais de vinte atletas de diversas modalidades, como hóquei, boxe, corrida e mergulho, todos com histórias trágicas ligadas ao conflito.
Repercussão e desfecho jurídico
Heraskevych compareceu a uma audiência na Corte Arbitral do Esporte em Milão, onde expressou confiança em uma decisão favorável, mas admitiu acreditar que seria impedido de competir independentemente do resultado. Ele afirmou a jornalistas que recebeu ameaças de russos por conta do capacete e culpou o COI por transformar os Jogos Olímpicos em uma "máquina de propaganda russa". Em suas palavras, "este é o preço da nossa dignidade".
Apesar dos apelos, a corte manteve a desclassificação, baseando-se no regulamento que proíbe equipamentos fora do padrão aprovado. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sibiga, também criticou o COI, escrevendo nas redes sociais que a entidade "vetou não apenas o atleta ucraniano, e sim a sua própria reputação". O episódio destacou as tensões entre a neutralidade esportiva e a expressão pessoal em tempos de guerra, deixando uma marca controversa nas Olimpíadas de Inverno de 2026.



