Com o mundo em estado de transe à espera do resultado das negociações para abrir caminho a um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, é impressionante o silêncio de Benjamin Netanyahu e demais integrantes do governo israelense. Nenhum país tem mais interesse no que sairá das negociações, mas a autodisciplina é obrigatória: o primeiro-ministro não pode correr o risco de desagradar Donald Trump, mesmo sabendo que a opinião pública israelense tem uma atitude de profunda desconfiança em relação a qualquer acordo com o Irã.
E, obviamente, não faltarão críticos para dizer que ele conduziu Israel a uma posição em que o país precisa aceitar sem reclamar decisões fechadas dos Estados Unidos. Segundo uma fonte israelense disse à Reuters, Trump sequer informou o primeiro-ministro de que as negociações com o Irã estavam em outro nível.
Risco político para Netanyahu
Uma percepção de que o acordo com o Irã é ruim para Israel poderia ser o golpe fatal para Netanyahu, provavelmente o maior especialista em sobrevivência política entre todos os países democráticos do mundo? Até um câncer de próstata ele administrou em meio a guerra, revelando-o no mês passado, apenas depois de feito o tratamento.
Netanyahu tem que convocar eleições em outubro próximo e os dois principais nomes da oposição, Naftali Bennett e Yair Lapid, formaram recentemente uma espécie de coalizão com duas estrelas, uma raridade na política israelense. As pesquisas indicam uma pequena vantagem para Bibi e seus aliados, mas a grande incógnita da situação no Irã pode criar situações sem precedentes.
Clima de pessimismo
Muito dependerá do que vai acontecer com os estoques de urânio enriquecido em alto grau, faltando apenas um processo final para tornar o material físsil suficiente para fazer bombas nucleares. Foi esse o principal motivo oferecido ao mundo tanto por Israel quanto pelos Estados Unidos para bombardear instalações militares do Irã.
Se houver a moratória de quinze anos no enriquecimento de urânio que Trump colocou sobre a mesa, é possível que as percepções não sejam tão negativas. Claro que Trump venderá como uma vitória qualquer prazo negociado, mas a conclusão depende dos israelenses, que ouvem há quase meio século as promessas do regime teocrático de varrer o país do mapa do Oriente Médio.
Quando Trump decretou o cessar-fogo, sem muitas considerações pela opinião de Netanyahu, da mesma forma que fez em Gaza e no Líbano, a opinião pública israelense estava num clima de pessimismo. Apenas 10% achavam que seu país ganhou, apesar de todos os estragos infligidos à infraestrutura militar iraniana.
Agora, uma nova pesquisa mostra que, para 59%, terminar a guerra nas circunstâncias atuais, não se alinha ou apenas se alinha ligeiramente com as necessidades de segurança de Israel. Apenas 39% manifestaram otimismo sobre a futura segurança nacional. E 51% acham que o governo americano tem maior influência sobre as questões da defesa nacional do que o próprio governo israelense.
Objetivos de Trump
Trump quer acabar com a guerra, vender a ideia de que encerrou o programa nuclear bélico iraniano, derrubar o preço do petróleo, recuperar pontos nas pesquisas de opinião, comandar uma economia vencedora – e tudo isso antes das eleições legislativas de novembro, para não perder o controle do Partido Republicano no Congresso.
São todos objetivos perfeitamente válidos, mas se precisar largar a mão de Netanyahu e deixar os israelenses frustrados, com um regime iraniano no poder e negociando na mesma mesa que os Estados Unidos, definitivamente fará isso. “Mantemos contato constante com nossos amigos nos Estados Unidos”, disse Netanyahu ontem, para consertar a impressão de que está sendo escanteado. Está difícil.



