Especialista afirma que Trump estava blefando sobre invasão da Groenlândia
Durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, o presidente norte-americano Donald Trump gerou polêmica ao abordar a crise envolvendo a Groenlândia. Em seu discurso, ele afirmou que a Dinamarca seria muito fraca para proteger a ilha, mas garantiu que não usaria força militar para conquistar o território. A declaração, no entanto, foi analisada por um especialista como um blefe estratégico.
Análise detalhada das declarações de Trump
Vitelio Brustolim, pesquisador de Harvard e professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense, concedeu uma entrevista ao Conexão Record News para esclarecer as ramificações das falas do líder americano. Segundo ele, o ponto mais relevante do discurso foi justamente a afirmação de que não haveria uso de força para tomar a Groenlândia.
"Até então, sempre que era questionado sobre isso, ele desconversava", destacou Brustolim. "Isso gerou um desconforto nos Estados Unidos, porque quase 80% da população é contra o uso da força para anexar ou ocupar a Groenlândia."
O professor ressaltou que muitos cidadãos americanos consideram a tomada do território uma perda de tempo, uma vez que os Estados Unidos já possuem bases na região. Além disso, pesquisas indicam que 85% da população da Groenlândia se opõe à integração com os EUA.
Obstáculos políticos e legais para uma possível invasão
Brustolim explicou que Trump enfrentaria sérias barreiras caso tentasse prosseguir com uma ação militar. O Congresso americano, responsável por autorizar verbas para operações militares, provavelmente não apoiaria a medida. Senadores do próprio partido republicano já se mostraram favoráveis a um impeachment se o presidente ordenasse uma invasão da ilha.
"Mesmo que o Trump ordenasse uma invasão militar à Groenlândia, não teria fundos para financiar essa operação", argumentou o especialista. "Então, na verdade, ele estava blefando e, claramente, toda a coerção dos Estados Unidos sobre a Europa ficou na esfera comercial, o que ainda é um problema."
Cenário eleitoral e popularidade em queda
O discurso de Trump em Davos ocorreu no contexto do primeiro ano de seu mandato, funcionando como uma espécie de prestação de contas. No entanto, Brustolim alertou que a popularidade do presidente permanece em níveis preocupantes, variando entre 39% e 42% nas pesquisas.
Essa baixa aprovação pode ser decisiva para as eleições de meio de mandato, marcadas para novembro. O especialista acredita que os democratas, partido de oposição, têm chances reais de vitória, especialmente devido a questões econômicas.
Fatores econômicos que ameaçam os republicanos
Brustolim identificou o custo de vida, ou "affordability", como o principal ponto das próximas eleições. "As tarifas não ajudam no custo de vida, porque, ao contrário do que Trump afirma, que quem paga as tarifas são os países que exportam para os Estados Unidos, a conta recai sobre o consumidor", explicou.
O especialista destacou que o custo de vida está muito elevado nos Estados Unidos, o que pode influenciar negativamente a base eleitoral republicana. Além disso, a perda de diversos "estados-chave" ao longo de 2025, que antes eram governados pelo partido, serve como outro indício de uma possível derrota nas urnas.
Contexto mais amplo do discurso em Davos
O Fórum Econômico Mundial reuniu mais de 3.000 delegados de 130 países, mas a atenção se voltou principalmente para Trump. Em seu longo discurso, o presidente elogiou a economia americana e sua própria gestão, afirmando que os EUA são o motor econômico do planeta.
Ele também comemorou os planos preparados para a Venezuela, abordou as negociações de paz entre Ucrânia e Rússia e discutiu questões internas, como o preço dos imóveis e a substituição do presidente do Federal Reserve. No entanto, foi a menção à Groenlândia que gerou as análises mais aprofundadas sobre suas intenções e o cenário político doméstico.
A popularidade de líderes como Zohran Mamdani também foi citada como uma ameaça aos resultados republicanos nas eleições de novembro, reforçando a complexidade do momento político nos Estados Unidos.