O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acendeu um novo pavio de tensão com o Irã ao declarar, nesta sexta-feira (2 de janeiro de 2026), que Washington está preparado para intervir caso o regime iraniano reprima com letalidade os protestos que se espalham pelo país. A ameaça, feita na rede social Truth Social, foi respondida horas depois por Teerã com um alerta sobre o risco de desestabilização de toda a região do Oriente Médio.
Troca de ameaças em meio a protestos
Em sua publicação, o líder republicano foi direto: os Estados Unidos estão "prontos para agir". Ele advertiu que, se as autoridades iranianas "atirarem e matarem violentamente manifestantes pacíficos", os americanos "virão em seu socorro". Trump não especificou a natureza dessa possível ação, deixando em aberto se seriam medidas diplomáticas, novas sanções ou mesmo uma intervenção militar.
A resposta do governo iraniano não demorou. Ali Larijani, assessor do líder supremo aiatolá Ali Khamenei, contra-atacou, afirmando que Trump deveria "ter cuidado". Ele alertou que qualquer interferência dos Estados Unidos nos assuntos internos do Irã levaria à "desestabilização de toda a região" e colocaria em risco os interesses americanos no Oriente Médio.
Cenário interno: crise econômica alimenta revolta
Este embate verbal ocorre no momento em que o Irã enfrenta a onda de protestos mais ampla desde 2022, quando a morte da jovem Mahsa Amini sob custódia policial gerou uma revolta nacional. Desta vez, os atos começaram no fim de dezembro, na capital Teerã, impulsionados por comerciantes furiosos com a nova desvalorização da moeda local, o rial, frente ao dólar e com a escalada do custo de vida.
Os números econômicos explicam parte do descontentamento: a inflação anual chegou a 42,2% em dezembro, com um aumento assustador de 72% nos preços dos alimentos, segundo dados citados por agências internacionais. Os protestos, que começaram com reivindicações econômicas, rapidamente se espalharam para outras cidades e ganharam o apoio de estudantes universitários. Em vários locais, os manifestantes passaram a entoar palavras de ordem contra o regime clerical e, em alguns casos, a pedir o fim do governo de Khamenei.
A repressão já mostrou sua face mais dura. De acordo com a imprensa iraniana e grupos de direitos humanos, ao menos seis pessoas morreram na quinta-feira (1º). A agência semioficial Fars noticiou mortes nas cidades de Lordegan, Azna e Kouhdasht, sem detalhar se as vítimas eram civis ou agentes de segurança. A ONG Hengaw afirmou que dois dos mortos em Lordegan eram manifestantes. As informações, no entanto, são de difícil verificação independente.
Discurso ambíguo e risco de escalada
Internamente, o governo iraniano apresenta uma postura dividida. De um lado, o presidente Masoud Pezeshkian disse estar disposto a ouvir "demandas legítimas" da população, numa tentativa de acalmar os ânimos. De outro, o procurador-geral Mohammad Movahedi-Azad advertiu que qualquer tentativa de "criar instabilidade" será enfrentada com uma "resposta decisiva", sinalizando que a repressão continua sobre a mesa.
Analistas internacionais ouvidos por veículos como Reuters e CNBC avaliam que os protestos atuais combinam fatores econômicos imediatos com um desgaste político acumulado ao longo dos anos. Para Suzanne Maloney, do centro de estudos Brookings Institution, os gritos nas ruas indicam que parte da população não pede apenas alívio econômico, mas mudanças estruturais no regime.
A postura de Trump reforça sua estratégia de longo prazo de confronto com Teerã, que incluiu a saída dos EUA do acordo nuclear em 2018 e a reimposição de severas sanções, mergulhando a economia iraniana em crise. Em junho do ano passado, os americanos realizaram ataques a instalações nucleares iranianas, alegando conter o programa atômico. O Irã respondeu com um ataque de mísseis contra uma grande base americana no Catar.
O resultado imediato das novas ameaças é a elevação do risco de uma escalada perigosa em uma região já extremamente instável, marcada por conflitos cruzados, rivalidades regionais e o impasse em torno do programa nuclear iraniano. Enquanto Trump se coloca, retoricamente, ao lado dos manifestantes, o regime em Teerã usa a fala americana como justificativa para denunciar ingerência externa e possivelmente intensificar a repressão interna.