Um estudo recente revelou uma mudança drástica na opinião pública nas redes sociais sobre a operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. A análise, realizada pela empresa Ativaweb, monitorou o sentimento digital entre os dias 5 e 6 de janeiro de 2026 e apontou uma rápida erosão do apoio inicial à ação.
Do apoio à crítica em 24 horas
O levantamento mostra que a narrativa dominante nas plataformas digitais migrou rapidamente. No dia 5 de janeiro, a operação foi enquadrada majoritariamente como a queda de um regime ditatorial, gerando uma hegemonia narrativa de apoio. Os dados globais daquele dia indicavam que 71,4% das menções eram favoráveis à prisão de Maduro, com apenas 10,7% negativas.
No Brasil, o cenário inicial também era de apoio cauteloso, com entre 56% e 62% de menções favoráveis, 22% a 26% neutras e de 16% a 20% negativas.
A virada do sentimento digital
A situação começou a mudar radicalmente na tarde do dia 6 de janeiro. Por volta das 20h, o sentimento global ainda mantinha 69% de apoio, mas a negatividade já havia subido para 19%. O cenário no Brasil, no entanto, foi mais sensível: apenas 51% se mantinham favoráveis, enquanto o índice negativo saltou para 25%, o maior desde o início do monitoramento.
Segundo a Ativaweb, a transição ocorreu porque o debate se deslocou do fato em si – a captura de Maduro – para a forma como o fato estava sendo conduzido. A análise aponta que o apoio inicial nasce do impacto do acontecimento, mas sua permanência depende diretamente da narrativa construída em torno dele.
O papel das declarações de Trump
A empresa responsável pelo estudo afirma que a mudança de percepção está diretamente associada a falas do ex-presidente dos EUA, Donald Trump. Suas declarações teriam reposicionado a narrativa, tirando-a do campo da "justiça" ou "mudança de regime" e a colocando no campo da "intervenção" e do "controle político".
"No primeiro momento, a percepção pública foi moldada pelo impacto do acontecimento. No segundo, ela passou a ser moldada pela avaliação política da condução do acontecimento", explica o relatório da Ativaweb. Essa transição explica por que o apoio caiu mesmo sem nenhuma alteração no fato central – a prisão do líder venezuelano.
Contexto brasileiro amplificou a crítica
No Brasil, onde o debate sobre política externa e soberania nacional já é historicamente mais acirrado, a virada foi ainda mais pronunciada. A tradição diplomática de cautela em relação a intervenções externas, somada à associação do tema com as diretrizes da política externa do governo brasileiro, amplificou a migração do apoio para a crítica.
O estudo conclui que os dados confirmam um padrão observado em outras crises globais: a janela de apoio inicial é curta e depende de uma narrativa consistente. No caso venezuelano, a narrativa do dia 5 era a da queda de um regime. A do dia 6 passou a ser a da intervenção estrangeira. Essa mudança de enquadramento, mais do que qualquer novo evento no campo de batalha, foi o fator decisivo para a reviravolta do sentimento nas redes sociais.