Queda de Maduro não é fim do chavismo: núcleo autoritário segue no poder
Queda de Maduro não significa fim do chavismo

A intervenção liderada pelos Estados Unidos que resultou na remoção de Nicolás Maduro do poder na Venezuela, em janeiro de 2026, abriu um novo e imprevisível capítulo na crise do país. No entanto, analistas alertam que o evento, por si só, não garante uma transição democrática imediata nem o desmantelamento do regime autoritário construído sob Hugo Chávez.

Núcleo duro mantém as rédeas do poder

Segundo o cientista político Elias Tavares, em entrevista ao programa Ponto de Vista, a velocidade da operação e o protagonismo do presidente americano Donald Trump surpreenderam a região, mas a estrutura de poder permanece. “O que estamos vivendo é um momento em que não dá para cravar absolutamente nada”, afirmou Tavares. A saída de Maduro não representa o fim do chavismo, pois figuras centrais do regime, como a vice-presidente Delcy Rodríguez, continuam no comando do Estado, garantindo a continuidade do núcleo autoritário.

Para o especialista, houve uma ruptura pontual na liderança, mas não uma mudança estrutural. O grupo que ascendeu com Chávez ainda ocupa posições estratégicas em todas as esferas do governo e das forças de segurança. “Eles representam justamente a continuidade desse período de ditadura vivido pela Venezuela”, avaliou Tavares, ressaltando que a população ainda não pode ser considerada liberta do regime consolidado nas últimas décadas.

Possibilidade de negociações com Washington

Um dos cenários que se desenha neste novo período é o de um possível diálogo direto entre o núcleo chavista remanescente e o governo dos Estados Unidos. Tavares aponta que a Venezuela pode adotar um tom mais conciliatório, buscando concessões pontuais. “A Venezuela pode baixar o tom e começar a trocar algumas cartas com Trump”, disse.

Contudo, o cientista político faz uma ponderação crucial: o grupo no poder não está satisfeito com a intervenção externa e demonstra resistência a transformações profundas no sistema. “Eles continuam no comando e não estão contentes com o que ocorreu”, afirmou. Isso indica que qualquer negociação será complexa e marcada por tensões, com o regime buscando preservar o máximo possível de seu aparato e influência.

Futuro do país mergulha em profunda indefinição

O panorama atual para a Venezuela é de instabilidade e incerteza prolongada. O país entra em uma fase onde tanto a aceitação interna da nova configuração de poder quanto o desenho de um arranjo político futuro permanecem em aberto. Tavares enfatiza a necessidade de acompanhar a reação da sociedade venezuelana e a evolução do diálogo internacional.

Enquanto isso, a promessa de uma mudança real e democrática parece distante. O autoritarismo construído ao longo dos anos mostra resiliência, sobrevivendo mesmo após a queda de seu principal símbolo, Nicolás Maduro. A transição, portanto, está longe de ser linear, e o período que se segue será decisivo para determinar se a ação liderada pelos EUA resultará em uma verdadeira abertura política ou apenas em uma reconfiguração do mesmo regime.