Conselho de Paz de Trump para Gaza: proposta polêmica e questionamentos
Proposta de Conselho de Paz de Trump para Gaza gera polêmica

O governo dos Estados Unidos, liderado pelo presidente Donald Trump, lançou uma proposta que está gerando intenso debate e preocupação na diplomacia internacional. A iniciativa, batizada de "Conselho da Paz", visa administrar de forma interina a Faixa de Gaza, mas é vista por especialistas como um movimento que pode minar as instituições multilaterais tradicionais.

Uma proposta com nome questionável e estrutura pouco clara

De acordo com análise do mestre em Relações Internacionais Uriã Fancelli, em entrevista ao programa Ponto de Vista apresentado por Laísa Dall’Agnol, a proposta chama atenção desde a sua nomenclatura. Para o especialista, trata-se da criação de um conselho de segurança paralelo, controlado diretamente pela Casa Branca, que ignora os mecanismos clássicos de equilíbrio de poder entre nações.

O plano prevê que este órgão governe o território de Gaza até que um governo local seja formado. No entanto, a falta de transparência sobre suas regras operacionais e a forte concentração de poder nas mãos do presidente americano são pontos que geram desconfiança. Convites para integrar o conselho já foram enviados a diversos países, incluindo Brasil, Rússia e Argentina. Até o momento, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva não deu uma resposta oficial ao chamado.

Composição contraditória e custos bilionários

Um dos aspectos mais criticados por Uriã Fancelli é a composição do suposto conselho. A inclusão de figuras como o presidente russo Vladimir Putin, que possui mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional, contradiz o discurso de promoção da paz que fundamenta a proposta. A presença de líderes envolvidos em conflitos armados fragiliza, na visão do analista, a credibilidade do projeto.

O mecanismo de adesão também é alvo de questionamentos. Países poderiam participar por ciclos renováveis de três anos, mas aqueles que desejassem um assento permanente teriam que desembolsar uma quantia astronômica: cerca de 1 bilhão de dólares já no primeiro ano. Não há clareza sobre para onde iriam esses recursos ou como seriam prestadas contas, aumentando as dúvidas sobre transparência e legitimidade.

Um risco para a ordem multilateral e o papel da ONU

Para Fancelli, o ponto central da crítica é o potencial do Conselho da Paz para rivalizar e enfraquecer a Organização das Nações Unidas (ONU). A proposta, em sua essência, desconsidera o sistema multilateral construído após a Segunda Guerra Mundial, substituindo o consenso internacional por critérios financeiros e decisões concentradas em um único líder.

O argumento oficial dos Estados Unidos é que as instituições tradicionais são lentas e ineficazes. O governo Trump defende que o novo conselho permitiria soluções mais rápidas e pragmáticas, livres das chamadas "amarras institucionais". No entanto, o analista vê nesse discurso uma justificativa para a concentração de poder e a fragilização das regras internacionais.

Apesar do barulho, a avaliação de Fancelli é de que a proposta tem poucas chances de sair do papel em sua forma atual. A falta de legitimidade internacional, a ausência de mecanismos claros de controle e o caráter excessivamente personalista do órgão dificultam sua aceitação ampla. Contudo, o debate em si já é significativo, pois expõe uma tentativa de redefinir as bases da governança global, com implicações que vão muito além do conflito específico na Faixa de Gaza.