Premiê do Canadá alerta para 'ruptura' mundial e critica postura de Trump em Davos
Premiê canadense critica Trump e fala em 'ruptura' mundial

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, realizou um discurso contundente na terça-feira (20) durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Em suas declarações, o líder canadense afirmou que o mundo está passando por uma "ruptura" da ordem mundial, e não por uma simples transição, em um claro alerta sobre as mudanças geopolíticas em curso.

Críticas veladas às ações de Trump

Apesar de não mencionar diretamente os Estados Unidos ou o presidente Donald Trump, Carney deixou evidente que suas críticas eram direcionadas às políticas adotadas pelo mandatário norte-americano. Ele argumentou que essas ações contribuíram para a atual realidade global, marcada por rivalidades entre grandes potências.

"Serei direto: estamos no meio de uma ruptura da ordem mundial, não de uma transição. O fim de uma ficção confortável e o início de uma realidade brutal, em que a geopolítica das grandes potências não está sujeita a nenhuma restrição", declarou Carney durante seu pronunciamento.

Fim da ordem baseada em regras

O premiê canadense destacou que o Canadá sempre buscou seguir a ordem mundial baseada no multilateralismo e na cooperação internacional, estabelecida principalmente após o término da Segunda Guerra Mundial. No entanto, ele ressaltou que essa lógica parece não funcionar mais no cenário atual.

"Todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências, que a ordem baseada em regras está se esvaindo, que os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem", acrescentou Carney, enfatizando a deterioração do sistema internacional.

Crises acumuladas e integração global

Segundo a análise de Carney, a crise mundial atual é resultado de uma série de eventos ocorridos nas últimas duas décadas, incluindo crises financeiras, sanitárias, energéticas e geopolíticas. Esses fatores expuseram os riscos associados a uma "integração global extrema".

"Mais recentemente, as grandes potências começaram a utilizar a integração econômica como arma, tarifas como instrumento de pressão, infraestruturas financeiras como mecanismo de coerção, cadeias de suprimento como vulnerabilidades a serem exploradas", explicou o primeiro-ministro, sem citar nominalmente os Estados Unidos nesse trecho.

Posicionamento sobre a Groenlândia

Em seu discurso, Carney também voltou a criticar as investidas de Donald Trump para anexar a Groenlândia, ilha do Ártico que pertence à Dinamarca e é vizinha do Canadá. O premiê canadense se disse "firmemente contrário" às tarifas de 10% que o presidente norte-americano ameaçou impor sobre países que se opuserem a essa iniciativa.

Além disso, Carney reafirmou, pela segunda vez nos últimos dias, que o Canadá honrará o tratado da Otan e defenderá a Groenlândia em caso de uma eventual invasão militar por parte dos Estados Unidos.

Eco entre líderes europeus

A fala de Carney encontrou ressonância em outros líderes europeus que também discursaram na terça-feira em Davos. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que "a velha ordem mundial acabou" e apontou Donald Trump como responsável por essa mudança. Ela declarou que a União Europeia será "inflexível" diante das ameaças dos EUA contra a Groenlândia.

Por sua vez, o presidente da França, Emmanuel Macron, criticou as investidas de Trump e disse que "não é momento para imperialismos e colonialismos". Macron defendeu que a Europa não deve se curvar à "lei do mais forte" e mencionou a possibilidade de usar instrumentos anticoerção contra os Estados Unidos.

Adaptação a novas realidades

Von der Leyen destacou que a Europa precisa se adaptar a uma nova arquitetura de segurança, indicando que não é mais possível confiar nos Estados Unidos como principal aliado, como ocorria nas décadas anteriores. "Agora vivemos em um mundo definido por poder bruto, um mundo cada vez mais sem leis. A Europa precisa de suas próprias alavancas de poder", reiterou a chefe da UE.

Macron também abordou a importância de manter relações com a China, rival econômica dos EUA, e afirmou que a Europa permanecerá ao lado da Dinamarca diante das pressões exercidas por Trump. "Preferimos o respeito aos valentões. Preferimos a ciência às teorias da conspiração e preferimos o Estado de Direito à brutalidade", concluiu o presidente francês.