Poder de Orbán na Hungria enfraquece após 16 anos; eleições podem definir nova era
Considerado um líder habilidoso e estratégico, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, vem moldando profundamente o sistema político do país à sua imagem e semelhança há impressionantes 16 anos, desde que reassumiu o cargo pela segunda vez. No entanto, o ultranacionalista de 62 anos — aliado histórico do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do russo Vladimir Putin — observa seu poder se enfraquecer gradualmente e, nas eleições deste domingo (12), corre sério risco de perder o posto que ocupa há mais de uma década e meia.
Pesquisas apontam favoritismo para oposição
As mais recentes pesquisas de intenção de voto colocam seu principal oponente, o jovem e carismático Peter Magyar, de centro-direita, como claro favorito ao cargo. Apesar de liderar um pequeno país de aproximadamente 9,5 milhões de habitantes, Orbán se tornou um verdadeiro ídolo da extrema direita global, conhecido internacionalmente como ferrenho opositor da União Europeia, da imigração, dos direitos LGBTQIA+ e do contínuo apoio ocidental à Ucrânia contra a invasão russa.
"Ele se destaca entre os líderes políticos europeus como alguém genuinamente diferente", afirma à AFP Emilia Palonen, professora na Universidade de Helsinque. "Líderes antiliberais ao redor do mundo o veem como um modelo inspirador, alguém que obteve sucesso notável e conseguiu tomar o poder de maneira duradoura".
Trajetória política: ascensão e transformação
Orbán tornou-se conhecido durante o turbulento declínio do comunismo húngaro, em 1989, com uma retórica inflamada que exigia democracia plena e a retirada imediata das tropas soviéticas. Foi uma das estrelas em ascensão da "nova" Europa e assumiu o cargo de deputado no Parlamento, na Hungria otimista e recém-democratizada de 1990. Contudo, Orbán logo se desfez de sua imagem inicial de liberal radical e começou a remodelar completamente o Fidesz, o partido que ajudou a fundar.
Aos poucos, a sigla foi se transformando em uma nova força política de centro-direita, defensora aguerrida dos valores familiares tradicionais e cristãos. A aposta rendeu frutos significativos: ele conquistou o apoio massivo da classe trabalhadora e elegeu-se primeiro-ministro em 1998, aos apenas 35 anos de idade. Seu primeiro mandato foi marcado por turbulências, resultando em uma derrota humilhante para os socialistas em 2002 e, novamente, em 2006.
Retorno ao poder e construção do "Estado antiliberal"
Ele retornou ao poder em 2010, mais maduro e, também, consideravelmente mais astuto. Apoiado por uma maioria sólida de dois terços no Parlamento, empreendeu uma ampla e profunda reforma das estatais e introduziu uma nova Constituição em 2012, repleta de valores conservadores e que lhe conferiu poderes ampliados. Orbán começou a redefinir metodicamente o Estado húngaro e suas instituições, construindo gradualmente um sistema que, em 2014, batizou oficialmente de "Estado antiliberal".
Há anos, seus críticos o acusam persistentemente de minar a independência do Judiciário, silenciar a imprensa livre e manipular o sistema eleitoral em seu benefício. O premiê limitou os poderes da Corte Constitucional, além de criar órgãos de controle da Justiça subordinados diretamente ao Executivo. Mudanças estratégicas no sistema eleitoral, como o redesenho de distritos e a criação de empecilhos para a formação de blocos opositores, também garantiram um domínio quase absoluto do Fidesz no Parlamento.
Controle midiático e conflitos com a União Europeia
Finalmente, Orbán criou órgãos reguladores de mídia utilizados para coibir e intimidar veículos e jornalistas críticos. Pouco a pouco, seus aliados próximos adquiriram jornais importantes, formando extensos blocos de mídia que atuam em perfeita consonância com seu governo. Essas medidas deflagraram repetidos e acalorados embates com a União Europeia, assim como sua postura firmemente anti-imigração, que demoniza solicitantes de asilo e restringe severamente seus direitos.
No entanto, Orbán transformou tudo isso em vantagem política, lançando extensas campanhas midiáticas centradas em seus constantes embates "com Bruxelas", nas quais se retrata habilidosamente como o defensor intransigente dos interesses nacionais contra o "globalismo" representado pelo bloco. Sua coalizão de governo, Fidesz-KDNP, foi reeleita com maioria de dois terços nas últimas três eleições consecutivas.
Ruptura com aliados e desgaste interno
Ao mesmo tempo — e por muitos anos —, a filiação do Fidesz à maior família política da UE, o Partido Popular Europeu (PPE), protegeu Orbán de consequências mais severas em relação ao evidente retrocesso democrático do sistema húngaro. Em 2021, PPE e Fidesz romperam laços definitivamente, após anos de tentativas frustradas de outros partidos-membros de pressionar Orbán a conter suas tendências autocráticas.
As repercussões desse divórcio político foram sentidas em sua plenitude no ano seguinte, quando a UE suspendeu bilhões de euros destinados à Hungria, citando as preocupações sérias de Bruxelas com a corrupção endêmica e o Estado de direito. Embora o governo de Orbán tenha empreendido reformas superficiais que permitiram o desbloqueio de uma parcela desses fundos, cerca de 18 bilhões de euros (equivalente a R$ 107 bilhões) permanecem congelados até hoje.
Posicionamento geopolítico e ascensão de rival
Após sua vitória eleitoral em 2022, Orbán posicionou-se cada vez mais como ator geopolítico independente, cultivando laços estreitos com Putin, Trump, líderes da extrema direita europeia e figuras latino-americanas próximas, como o presidente argentino Javier Milei, o chileno José Antonio Kast e a família Bolsonaro. Seu governo gastou generosamente o dinheiro dos contribuintes para promover ativamente seu modelo político único.
Orbán aproveitou a presidência semestral da Hungria no Conselho da UE, em 2024, para empreender uma autodenominada "missão de paz" a Moscou, iniciativa que irritou profundamente outros líderes do bloco. No entanto, enquanto líderes de perfil semelhante ascendiam ao poder em diversas partes do mundo, a autoridade interna de Orbán começou a declinar visivelmente, em meio a uma estagnação econômica preocupante, escândalos recorrentes e o surgimento meteórico do rival Peter Magyar.
Eleitorado jovem e urbano mobilizado
O eleitor típico da oposição a Orbán tende a ser mais jovem, urbano e cosmopolita, com maior nível de escolaridade e concentrado principalmente em grandes cidades, sobretudo Budapeste e outros importantes centros universitários. A Parada do Orgulho LGBT+ na capital húngara, proibida por Orbán, transformou-se em um evento simbólico de opositores do Fidesz que atrai multidões cada vez maiores a cada ano que passa, com o apoio aberto da prefeitura, controlada pela oposição.
Resta saber agora se o movimento anti-Orbán, finalmente reunido sob uma única candidatura coesa, terá força política suficiente para derrotar o Fidesz jogando exatamente pelas regras complexas que o próprio partido escreveu ao longo dos anos. As eleições deste domingo prometem ser um marco histórico para a Hungria e para a política europeia.



