Primeira mulher condenada à morte por protesto no Irã testa poder de Trump
Em um momento de alta volatilidade geopolítica, a sentença de morte de Bita Hemmati, primeira mulher condenada à forca por participação nos protestos iranianos do início do ano, pode trazer complicações adicionais para as já tensas relações entre Teerã e Washington. A situação coloca em xeque o poder de pressão do presidente americano Donald Trump, que anteriormente conseguiu impedir a execução do jovem comerciante Erfan Soltani, mas agora enfrenta um cenário significativamente mais complexo.
O caso de Bita Hemmati
Bita Hemmati, uma mulher que usa cílios postiços e tinge os cabelos de loiro – características que a fariam passar despercebida em qualquer turma antenada do mundo – pode ter seu destino selado pela justiça iraniana. Ela, seu marido e mais dois conhecidos foram acusados de:
- Utilizar armas e explosivos durante os protestos
- Jogar blocos de concreto contra forças de segurança
- Prejudicar a segurança nacional do Irã
- Realizar "atos operacionais para o governo inimigo dos Estados Unidos"
Mesmo durante os bombardeios da primeira etapa da guerra, o regime iraniano manteve algumas execuções, aparentemente para demonstrar que continuava funcionando "normalmente". A enorme onda de protestos de janeiro possivelmente influenciou Trump a optar pela intervenção militar, acreditando que as multidões de iranianos voltariam às ruas diante de um regime enfraquecido – uma expectativa que não se concretizou.
O jogo estratégico de Trump
Atualmente, o presidente americano está envolvido em altos lances estratégicos que limitam sua capacidade de ação imediata no caso Hemmati. Por um lado, aumentou drasticamente a pressão econômica ao bloquear a saída de navios iranianos pelo estratégico Estreito de Ormuz – um golpe letal para uma economia já combalida. Por outro, tenta seduzir o regime a abandonar seu programa nuclear em troca do chamado "pacote Tiffany", uma tentadora série de vantagens econômicas que incluiria o levantamento de sanções.
"Ele não quer fazer um pequeno acordo. Quer um negócio grande", definiu o vice-presidente JD Vance, indicando que houve avanços importantes nas negociações que ocorreram no Paquistão, mesmo que tenham terminado sem resultados concretos. A posição americana, segundo Vance, é clara: "Não houve um acordo ainda porque o presidente quer que o Irã não tenha armas nucleares, não patrocine o terrorismo, mas também que o povo do Irã prospere e se incorpore à economia mundial".
Radicalização e incertezas
A probabilidade de que o regime iraniano aceite um acordo nos termos propostos por Trump é considerada muito baixa. Por sua própria natureza fundamentalista xiita, possuir armas nucleares representa um princípio irrenunciável para Teerã. Embora possam existir correntes mais suscetíveis às vantagens econômicas oferecidas, nenhuma delas parece estar prevalecendo atualmente.
A tendência dominante no Irã é de radicalização ainda maior, com as execuções servindo como demonstração de força para manter o clima de medo entre a população insatisfeita. Neste contexto, Bita Hemmati e os outros condenados podem ser usados como fichas de barganha – o que representa sua única chance de sobrevivência.
A pergunta que permanece sem resposta é: o que mais Trump pode fazer para salvar Bita que já não tenha feito? Com seu poder de intimidação diminuído pelas complexidades da situação atual e pelas próprias manobras estratégicas em curso, a pressão americana pode não ser suficiente para reverter a sentença de morte que paira sobre a primeira mulher condenada por protestos no Irã.



