Presidente brasileiro faz duras críticas a potências ocidentais em reunião da Celac
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou seu discurso na reunião de chefes da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e da África, realizada neste sábado, 21 de março, para lançar críticas contundentes aos Estados Unidos e suas ações internacionais. O mandatário brasileiro questionou abertamente as motivações por trás dos recentes ataques norte-americanos ao Irã, traçando paralelos históricos com a guerra do Iraque.
Comparação com a guerra do Iraque e questionamentos diretos
"E agora se invadiu o Irã a pretexto de que o Irã estava construindo bomba nuclear. Cadê as armas químicas do Saddam Hussein? Aonde elas estão? Quem achou?", provocou Lula durante seu pronunciamento em Bogotá, Colômbia. A referência direta às armas de destruição em massa que nunca foram encontradas no Iraque serviu como base para sua crítica à justificativa atual para os ataques ao território iraniano.
O presidente brasileiro destacou que o mundo não pode continuar vivendo "num mundo de mentiras, em que as pessoas constroem inimigos, constroem uma imagem negativa do inimigo para justificar a destruição". Suas palavras ecoaram no plenário que reuniu representantes de diversos países dos continentes americano e africano.
Lembrança de acordo nuclear descartado
Lula também fez questão de recordar sua atuação direta em negociações internacionais durante seu segundo mandato presidencial. Ele relembrou quando, em 2010, viajou a Teerã junto com o presidente da Turquia para convencer o governo iraniano a limitar seu programa de enriquecimento de urânio.
"Fizemos um acordo, fizemos um acordo, esse acordo, quando foi publicado, ao invés dos países europeus e os Estados Unidos aceitarem o acordo, eles aumentaram o bloqueio ao Irã", criticou o presidente brasileiro. Segundo seu relato, o acordo havia sido previamente aprovado pelo então presidente norte-americano Barack Obama, mas foi rejeitado após sua formalização.
O mandatário acrescentou que, anos depois, as potências ocidentais fizeram "um outro acordo pior do que aquele que a gente tinha feito", antes de partir para a ação militar contra o Irã sob a alegação de desenvolvimento de armas nucleares.
Crítica ampla à ordem internacional
O discurso de Lula na Celac foi amplo e abordou múltiplas questões geopolíticas. O presidente brasileiro expressou indignação com a passividade do Conselho de Segurança da ONU diante de diversos conflitos internacionais, incluindo Gaza, Iraque, Líbia, Ucrânia e Irã.
"O Conselho de Segurança da ONU e os seus membros permanentes foram criados para tentar manter a paz. E são eles que estão fazendo as guerras", afirmou Lula, questionando quando a comunidade internacional tomará atitudes para impedir que países mais poderosos se considerem donos de nações mais frágeis.
O presidente defendeu a necessidade de reforma das instituições multilaterais, incluindo a ampliação da representação no Conselho de Segurança da ONU e a renovação da Organização Mundial do Comércio, atualmente presidida pela nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala.
Defesa da soberania e críticas ao neocolonialismo
Em outro momento contundente de seu discurso, Lula alertou para o que chamou de tentativas de neocolonialismo relacionadas aos recursos minerais estratégicos. "Depois de levarem tudo que a gente tinha, agora, eles querem ser donos dos minerais críticos e das terras raras que nós temos", afirmou, referindo-se a potências estrangeiras.
O presidente citou especificamente a Bolívia como exemplo, destacando que após séculos de exploração, os países em desenvolvimento não podem aceitar ser apenas exportadores de minérios brutos. "Quem quiser que venha se instalar e produzir no país, para que a gente tenha a chance de desenvolver o nosso país", defendeu.
Prioridades alternativas: combate à fome e desenvolvimento
Contrapondo os gastos militares globais às necessidades humanitárias, Lula destacou que "enquanto se gastou ano passado 2,7 trilhões de dólares em armas e guerras, nós ainda temos 630 milhões de pessoas passando fome". O presidente brasileiro lembrou sua recusa em participar da Guerra do Iraque em 2002, quando preferiu declarar guerra à fome no Brasil.
"A minha guerra é contra a fome de 54 milhões de brasileiros que não têm o que comer. E essa guerra eu vou vencer", recordou ter dito ao então presidente norte-americano George W. Bush. Lula destacou que em 2014 o Brasil havia eliminado a fome, mas que ao retornar à presidência encontrou 33 milhões de brasileiros nessa situação novamente, número que já foi reduzido em seu atual mandato.
O discurso do presidente brasileiro na Celac reforçou seu posicionamento histórico em defesa do multilateralismo, da soberania nacional e de uma ordem internacional mais equilibrada, enquanto criticava duramente as ações unilaterais de potências ocidentais, especialmente dos Estados Unidos.



