Lula sinaliza resposta recíproca após ação dos EUA contra delegado da Polícia Federal
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou nesta segunda-feira (20) que pode adotar medidas de reciprocidade em resposta à ação do governo americano contra um delegado da Polícia Federal que atuava nos Estados Unidos. A situação ocorre após autoridades norte-americanas solicitarem que o agente brasileiro deixe o território americano, em um caso que envolve diretamente o ex-deputado federal Alexandre Ramagem.
O contexto do conflito diplomático
O gabinete para assuntos do hemisfério ocidental do governo dos Estados Unidos publicou uma declaração em rede social afirmando que "nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos". A postagem acrescentou: "Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro envolvido deixe o nosso país por tentar fazer isso", sem citar nomes especificamente.
A embaixada americana em Brasília posteriormente esclareceu que a referência era ao delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, que desde março de 2023 atuava como oficial de ligação junto ao ICE (Immigration and Customs Enforcement), o serviço de imigração e controle aduaneiro dos Estados Unidos.
O caso Alexandre Ramagem
O episódio está diretamente relacionado ao ex-deputado Alexandre Ramagem, que teve seu mandato cassado pelo Supremo Tribunal Federal e foi considerado foragido desde setembro de 2025 após fugir para os Estados Unidos. Na semana passada, Ramagem foi detido por estar com visto de turista vencido e sem passaporte válido.
A Polícia Federal brasileira inicialmente afirmou que a prisão resultava de um acordo de cooperação entre Brasil e Estados Unidos com objetivo de deportação. Porém, dois dias após a detenção, a polícia imigratória americana liberou o ex-deputado sem pagamento de fiança, alegando que Ramagem aguardava análise de pedido de asilo político.
A situação do delegado brasileiro
Embora tecnicamente não tenha havido expulsão formal do delegado Marcelo Ivo nem comunicação oficial ao governo brasileiro, fontes da diplomacia americana indicam que houve um pedido para que o agente deixasse o país voluntariamente, antes que medidas coercitivas fossem tomadas. A função do delegado nos Estados Unidos era temporária e terminaria em agosto deste ano, e ele já está retornando ao Brasil.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que acompanhava o presidente Lula na Europa, ressaltou que o trabalho do delegado nos Estados Unidos baseia-se em memorando de entendimento entre os dois países e considerou as acusações sem fundamento. No Brasil, o Itamaraty convocou o representante do governo americano para explicações sobre o caso.
Posicionamento das autoridades brasileiras
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também presente na comitiva presidencial, destacou que ainda não houve comunicação oficial sobre o assunto. "Esse colega, oficial de ligação, já está há mais de dois anos nos Estados Unidos fazendo atividade de cooperação policial como fazemos com 34 países", afirmou Rodrigues. "Então, como o ministro disse, agora é aguardar formalmente algum esclarecimento para, a partir disso, adotarmos qualquer medida".
A ameaça de reciprocidade de Lula
O presidente Lula afirmou que aguarda mais informações, mas não descartou a possibilidade de adotar medidas recíprocas contra o correspondente americano no Brasil. "Eu não sei o que aconteceu. Fui informado hoje de manhã. Acho que se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil", declarou o presidente.
Lula foi enfático ao acrescentar: "Não tem conversa, ou seja, nós queremos que as coisas aconteçam da forma mais correta possível, mas nós não podemos aceitar essa ingerência e esse abuso de autoridade que algumas personagens americanas querem ter com relação ao Brasil".
O caso representa mais um capítulo nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos, que agora enfrentam este impasse envolvendo cooperação policial e questões de imigração. As próximas horas devem definir se as ameaças de reciprocidade se concretizarão ou se as partes encontrarão uma solução negociada para o conflito.



