Conflito no Irã provoca crise energética global com preços em alta
A guerra no Irã está gerando uma crise energética de proporções globais, com consumidores e empresas em todo o mundo enfrentando semanas ou até meses de preços mais altos de combustíveis. Mesmo que o conflito, que já dura uma semana, tenha um desfecho rápido, os fornecedores ainda precisarão lidar com instalações danificadas, logística interrompida e riscos elevados no transporte marítimo, fatores que prolongarão os impactos no mercado.
Interrupção no fornecimento e aumento dos preços
O conflito já levou à suspensão de aproximadamente um quinto do fornecimento global de petróleo bruto e gás natural. Teerã tem atacado navios no estratégico Estreito de Ormuz, localizado entre suas costas e Omã, além de infraestrutura energética em toda a região. Como resultado, os preços globais do petróleo subiram 24% na semana, ultrapassando a marca de US$ 90 por barril, pressionando diretamente os custos dos combustíveis para consumidores em diversos países.
O fechamento quase total do Estreito de Ormuz forçou grandes produtores da região, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait, a suspenderem embarques de até 140 milhões de barris de petróleo. Isso equivale a cerca de 1,4 dia da demanda global, afetando refinarias em várias nações. Os estoques de petróleo e gás nas instalações do Golfo Pérsico estão se esgotando rapidamente, com campos no Iraque já reduzindo a produção, e Kuwait e Emirados Árabes Unidos provavelmente seguindo o mesmo caminho em breve.
Danos à infraestrutura e lentidão na recuperação
Forças iranianas vêm atacando infraestrutura energética regional, incluindo refinarias e terminais, forçando a interrupção de operações. Em alguns casos, os danos foram graves e exigem reparos significativos. Por exemplo, o Catar declarou força maior em suas exportações de gás após ataques de drones iranianos, e pode levar pelo menos um mês para retornar aos níveis normais de produção. O país é responsável por cerca de 20% do GNL mundial.
Amir Zaman, chefe da equipe comercial das Américas da Rystad Energy, destacou que campos petrolíferos que interromperam atividades em todo o Oriente Médio devido aos problemas no transporte marítimo podem demorar a voltar ao normal. "O conflito pode ser resolvido, mas isso pode levar dias, semanas ou meses, dependendo do tipo de campo, da idade do campo e do tipo de paralisação que tiveram que fazer antes que a produção possa voltar ao nível anterior", explicou ele.
Impactos regionais e globais na economia
A interrupção no fornecimento de energia já está repercutindo nas cadeias de suprimentos e economias da Ásia, região que depende fortemente de importações e obtém cerca de 60% do seu petróleo bruto do Oriente Médio. Na Índia, a estatal Mangalore Refinery and Petrochemicals declarou força maior para cargas de exportação de gasolina, enquanto na China, pelo menos duas refinarias reduziram a produção. Tailândia e Vietnã também suspenderam exportações de derivados e embarques de petróleo bruto, respectivamente.
No Japão, segundo maior importador mundial de GNL, os contratos futuros de energia de base para Tóquio subiram mais de um terço na semana, em antecipação a combustíveis mais caros. Em Seul, motoristas formaram filas em postos de gasolina, prevendo altas nos preços. Para os consumidores europeus, a crise no fornecimento de gás e os preços mais altos representam um duplo golpe, já que a região ainda se recupera dos impactos das sanções às importações de energia russas após a invasão da Ucrânia em 2022.
Riscos políticos para os Estados Unidos
O cenário representa uma vulnerabilidade política significativa para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, às vésperas das eleições de meio de mandato. Eleitores estão sensíveis ao aumento das contas de energia e, em geral, rejeitam novos envolvimentos militares no exterior. Nos EUA, o preço médio da gasolina no varejo atingiu US$ 3,32 por galão, uma alta de 34 centavos na semana, enquanto o diesel chegou a US$ 4,33 por galão.
Mark Malek, diretor de investimentos da Siebert Financial, comentou sobre o impacto psicológico: "Os preços da gasolina têm um forte impacto psicológico. Eles representam o índice da inflação que os consumidores veem todos os dias." A alta da gasolina pode influenciar negativamente a percepção pública e afetar os resultados eleitorais, aumentando a pressão sobre a administração Trump para resolver a crise rapidamente.
Incertezas no transporte marítimo e futuro do conflito
A maior incógnita para o fornecimento de energia é como e quando o Estreito de Ormuz voltará a ser seguro para a navegação. Embora Trump tenha oferecido escolta naval a petroleiros e prometido apoio financeiro dos EUA a embarcações na região, a segurança nas rotas marítimas pode ser ilusória. Fontes de inteligência e militares alertam que o Irã tem capacidade de sustentar ataques com drones contra embarcações por meses, prolongando os riscos.
Joel Hancock, analista de energia da Natixis CIB, observou: "Considerando os danos físicos causados pelos ataques iranianos, até agora não vimos nada que possa ser considerado estrutural, embora o risco permaneça enquanto a guerra continuar." Um fim rápido do conflito ajudaria a acalmar os mercados, mas o retorno aos níveis de oferta e preços pré-guerra pode levar semanas ou meses, dependendo da extensão dos danos à infraestrutura e ao transporte marítimo.
