Na próxima terça-feira (28), o conflito entre Estados Unidos e Irã completará dois meses. Durante esse período, marcado por cessar-fogos e bombardeios, ambos os países têm despendido enormes recursos financeiros, especialmente na aquisição e uso de armamentos.
De acordo com estimativas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), nos primeiros 55 dias de guerra (sendo 38 até o cessar-fogo, que não foi integralmente respeitado), o presidente Donald Trump já gastou pouco mais de US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 100 bilhões) em armas. Para contextualizar, esse valor supera o Produto Interno Bruto (PIB) de nações como Guiana e Montenegro.
Estoque bélico dos EUA sob análise
Na última terça-feira (21), o CSIS realizou um levantamento do arsenal norte-americano, focando em sete tipos de armas consideradas essenciais e amplamente utilizadas na ofensiva contra o Irã. Entre elas, destacam-se os mísseis Tomahawk, de longo alcance e alta precisão, e sistemas de defesa antiaérea.
O estudo revela que os EUA podem ter consumido mais da metade do estoque pré-guerra em quatro das sete categorias analisadas. Além disso, os níveis anteriores ao conflito já eram considerados baixos para um eventual confronto com uma potência militar equivalente, como a China.
Confira a estimativa do instituto para as armas essenciais:
- Tomahawk (míssil de cruzeiro de longo alcance): custo unitário de US$ 2,6 milhões; estoque pré-guerra de 3.100 unidades; cerca de 850 usadas contra o Irã (aproximadamente 27%).
- JASSM (míssil de cruzeiro de longo alcance): US$ 2,6 milhões por unidade; 4.400 em estoque; cerca de 1.000 utilizadas (22%).
- PrSM (míssil balístico de curto alcance): US$ 1,6 milhão; 90 unidades; entre 40 e 70 usadas (44,4% a 77,8%).
- SM-3 (míssil de defesa antimíssil): US$ 28,7 milhões; 410 unidades; de 130 a 250 utilizadas (31,7% a 61%).
- SM-6 (míssil de defesa antiaérea): US$ 5,3 milhões; 1.160 unidades; de 190 a 370 usadas (16,4% a 31,9%).
- THAAD (sistema de defesa antimíssil): US$ 15,5 milhões; 360 unidades; de 190 a 290 utilizadas (52,8% a 80,6%).
- Patriot (sistema de defesa antiaérea e antimíssil): US$ 3,9 milhões; 2.330 unidades; de 1.060 a 1.430 usadas (45,5% a 61,4%).
Gastos totais e impacto em aliados
Fontes do The New York Times projetam que o gasto total dos EUA com o conflito já ultrapassou US$ 28 bilhões (R$ 140 bilhões). O Departamento de Defesa, no entanto, não divulgou oficialmente o número exato de munições utilizadas.
Apesar do consumo significativo de seu poderio bélico, os EUA ainda possuem mísseis suficientes para sustentar a guerra, mas podem ficar vulneráveis em caso de novos conflitos. Aliados como a Ucrânia, que dependem do fornecimento de armamento norte-americano, também podem ser afetados.
O estudo do CSIS indica que, mesmo com o esgotamento desses armamentos de ponta, o país poderia continuar operando com outros tipos de armas. No entanto, essas alternativas têm menor alcance, aumentando o risco das operações, pois exigiriam lançamentos em posições mais próximas do alvo.
Preocupações pré-guerra e reposição lenta
Antes mesmo do início da ofensiva, o nível dos estoques já preocupava autoridades de defesa. Poucos dias antes da guerra, o Washington Post revelou que o arsenal dos EUA estava em baixa devido ao apoio aos conflitos na Ucrânia e em Israel.
No início de março, Trump admitiu a escassez de armamentos de ponta, mas afirmou que o país possui estoques "praticamente ilimitados" de armas de médio e médio-alto alcance. "Guerras podem ser travadas 'para sempre' e com muito sucesso, usando apenas esses suprimentos", disse.
O governo também fechou acordos com a indústria de defesa para ampliar a produção, mas a reposição é lenta. Algumas armas levam meses para ficar prontas. "Historicamente, esse prazo era de cerca de 24 meses, mas, como os pedidos de munição passaram a superar a capacidade de produção nos últimos anos, os prazos de entrega se estenderam para 36 meses ou mais. A produção de todo o lote leva mais 12 meses. No total, são cerca de 52 meses — mais de quatro anos", afirma o CSIS.
A situação do Irã
Uma reportagem da CBS News, publicada na quarta-feira (22), apontou que o Irã pode ter mais capacidade militar do que os EUA admitem publicamente. As informações foram obtidas com fontes do governo americano.
Oficialmente, Trump afirma que os EUA "aniquilaram" a Marinha e a Força Aérea do Irã. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, disse no início de abril que os EUA "dizimaram" as Forças Armadas iranianas, deixando-as "ineficazes em combate por muitos anos".
Os EUA afirmam ter reduzido em 90% a capacidade de mísseis balísticos e drones do Irã, enquanto Israel diz ter atingido mais de 70% dos lançadores iranianos. No entanto, autoridades ouvidas pela CBS News afirmam que o Irã ainda mantém metade do arsenal de mísseis balísticos e sistemas de lançamento intacta. Não está claro o tamanho do estoque, mas há indícios de que parte das armas esteja escondida em cavernas ou bunkers.
Na terça-feira, o Irã realizou um desfile militar em Teerã e exibiu mísseis balísticos nas ruas, incluindo o Khorramshahr-4, um dos mais avançados do arsenal do país, com alcance estimado em cerca de 2.000 quilômetros.
Ainda assim, as forças iranianas mostram sinais de enfraquecimento. Dados obtidos pela NBC News apontam que o número de lançamentos de mísseis e drones iranianos caiu drasticamente em relação aos primeiros dias da guerra. No fim de março, os EUA sobrevoaram o Irã com bombardeiros B-52, indicando limitações na defesa aérea do país.
Um relatório do chefe da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA, tenente-general James Adams, aponta que o Irã ainda tem capacidade de causar danos. "O Irã mantém milhares de mísseis e drones de ataque de uso único capazes de ameaçar forças dos Estados Unidos e de parceiros em toda a região, apesar das perdas sofridas", diz. Por outro lado, Adams afirmou que as forças terrestres e aéreas iranianas têm equipamentos ultrapassados e treinamento limitado, tornando-as "quase certamente incapazes de derrotar um adversário tecnologicamente superior".



