Groenlândia emite manual de autossuficiência após ameaças de Trump sobre tomada do território
O governo da Groenlândia apresentou oficialmente nesta quarta-feira, 21 de janeiro de 2026, um documento inédito com orientações detalhadas para a população em cenários de "crise" na região autônoma administrada pela Dinamarca. A iniciativa, intitulada "Preparado para crises – seja autossuficiente por cinco dias", surge em um contexto de tensões geopolíticas crescentes, marcado por ameaças públicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de tomar o controle da ilha, rica em recursos naturais estratégicos.
Orientações práticas para cenário de emergência
O manual de sobrevivência, que começou a ser elaborado no ano passado conforme confirmado pelas autoridades locais, estabelece recomendações concretas para os cidadãos groenlandeses. Entre as principais medidas destacam-se:
- Estocar alimentos não perecíveis em quantidade suficiente para cinco dias
- Separar três litros de água potável por pessoa, diariamente
- Manter um rádio a pilhas em funcionamento para receber informações
- Ter acesso a armas para defesa pessoal em caso de ataque
Durante coletiva de imprensa, o ministro da Autossuficiência, Peter Borg, descreveu o documento como "uma apólice de seguro", embora tenha amenizado o tom ao afirmar que não espera "realmente precisar usá-la". A publicação ocorre em um momento delicado, onde a retórica agressiva de Trump sobre a Groenlândia tem gerado apreensão internacional.
Contexto político das ameaças de Trump
As ameaças do líder americano intensificaram-se nas últimas semanas, com declarações públicas onde afirmou que os Estados Unidos assumiriam o controle do território "de um jeito ou de outro", justificando a necessidade com argumentos de segurança nacional. Em discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, Trump descartou formalmente o uso de força militar, mas exigiu "negociações imediatas" sobre o futuro da Groenlândia – posteriormente anunciando que havia definido a "estrutura" de um possível acordo.
Um elemento adicional revelado pelo jornal norueguês VG nesta segunda-feira, 19, mostra que Trump vinculou explicitamente suas ameaças à Groenlândia com sua frustração por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz. Em carta ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, o presidente americano escreveu: "Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por eu ter impedido mais de oito guerras, não me sinto mais obrigado a pensar apenas em paz", acrescentando que agora pode "pensar no que é bom e apropriado" para os Estados Unidos.
Preparações militares e envolvimento da Otan
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou na véspera do lançamento do manual que autoridades locais estão em preparação ativa para uma eventual incursão militar norte-americana. "Devemos estar preparados para todas as possibilidades. Mas enfatizamos que a Groenlândia faz parte da Otan e, se houver uma escalada, isso também terá consequências para o mundo exterior", declarou Nielsen, referindo-se à principal aliança militar ocidental.
Na segunda-feira, representantes da Dinamarca e da Groenlândia discutiram com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, a possibilidade de uma missão da Organização do Tratado do Atlântico Norte na região ártica. O ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, confirmou os diálogos após reunião em Bruxelas com a ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt.
Implicações geopolíticas e recursos naturais
A Groenlândia representa um território estratégico não apenas por sua localização no Ártico, mas também por suas vastas reservas de recursos naturais, incluindo minerais raros essenciais para tecnologias modernas. A possibilidade de uma tomada norte-americana, mesmo que retórica, coloca em xeque o equilíbrio geopolítico na região e testa os mecanismos de defesa coletiva da Otan, da qual a Dinamarca – que administra a Groenlândia – é membro fundador.
O manual de sobrevivência groenlandês simboliza assim mais do que um conjunto de instruções práticas: trata-se de um documento político que reflete as incertezas internacionais em um momento de tensões renovadas entre potências globais, onde discursos presidenciais podem rapidamente transformar-se em crises reais com impactos diretos sobre populações locais.