Groenlândia lança guia de sobrevivência para crise em meio a tensões com EUA
Groenlândia lança guia de sobrevivência para crise

Groenlândia lança guia de sobrevivência para cinco dias em meio a tensões geopolíticas

O governo da Groenlândia apresentou nesta quarta-feira, 21 de janeiro, um novo manual de orientações destinado à população local, preparando-a para enfrentar possíveis situações de "crise" no território. O documento, intitulado "Preparado para crises – seja autossuficiênte por cinco dias", surge em um momento de crescente interesse internacional pela região, especialmente por parte dos Estados Unidos, sob a administração do presidente Donald Trump.

Conteúdo do manual e recomendações práticas

A brochura inclui uma série de recomendações detalhadas para garantir a sobrevivência e autonomia dos habitantes durante um período de cinco dias. Entre os itens essenciais listados, destacam-se:

  • Estoque de alimentos suficientes para cinco dias
  • Três litros de água por pessoa, por dia
  • Papel higiênico e outros itens de higiene básica
  • Rádio a pilha para manter-se informado
  • Armas, munição e material de pesca, refletindo as tradições locais

O ministro da Autossuficiência, Peter Borg, explicou durante uma coletiva de imprensa na capital Nuuk que o manual funciona como uma "apólice de seguro". "Não esperamos realmente precisar usá-la", afirmou Borg, mas enfatizou que "preparar-se é melhor do que nada". A elaboração do guia começou no ano passado, inicialmente focada em cenários de cortes prolongados de energia, mas evoluiu para abranger uma gama mais ampla de emergências.

Contexto geopolítico e interesse de Trump

Esta iniciativa ocorre em um cenário internacional marcado por tensões, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, expressando publicamente o desejo de "adquirir" a Groenlândia. Em declarações recentes em Davos, Trump afirmou que "ninguém pode defender a Groenlândia como os EUA", justificando a intenção como uma forma de conter avanços russos e chineses no Ártico. Embora tenha dito que não usaria "força" para tomar a ilha, ele defende "negociações imediatas" para obtê-la.

O primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, avaliou na terça-feira que uma operação militar contra a ilha é "improvável", mas ressaltou que o território autônomo dinamarquês deve estar pronto para qualquer eventualidade. A Groenlândia, com cerca de 57 mil habitantes, dos quais quase 90% são Inuits, tem uma população que historicamente depende da caça e pesca para subsistência.

Oposição local e análises internacionais

Pesquisas recentes indicam uma forte rejeição da população groenlandesa à ideia de anexação aos Estados Unidos. Um levantamento de janeiro de 2025 mostra que 85% dos groenlandeses se opõem à proposta, enquanto apenas 6% se declaram favoráveis. Analistas internacionais interpretam o lançamento do manual como uma medida de precaução diante do aumento das pressões externas e da crescente importância geopolítica do Ártico.

Autoridades locais e especialistas concordam que, embora um conflito armado seja considerado improvável, não pode ser totalmente descartado. Nesse contexto, o governo da Groenlândia tem promovido ações de preparação cívica como uma estratégia preventiva, visando fortalecer a resiliência da comunidade em um ambiente de competição global intensificada.

Os Inuits e sua adaptação ao Ártico

Os Inuits, povos indígenas do Ártico e habitantes tradicionais de regiões que hoje incluem o Canadá, Alasca, Groenlândia e partes do norte da Rússia, possuem um conhecimento profundo e específico para sobreviver em ambientes extremamente frios. Ao longo de milhares de anos, desenvolveram técnicas avançadas para caçar, pescar e se deslocar na tundra e sobre o gelo, habilidades que são naturalmente integradas às recomendações do novo manual.

Essa herança cultural reforça a capacidade da população groenlandesa de enfrentar adversidades, tornando a iniciativa do governo não apenas uma resposta às tensões políticas atuais, mas também um reconhecimento das tradições locais de autossuficiência e resiliência.